quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Uma breve história da luta acreana

O Acre é hoje um estado multiétnico. Sua população é constituída por descendentes de todas as raças que historicamente formaram a sociedade brasileira. Ainda possui 14 etnias indígenas reconhecidas e organizadas, além de grupos de índios isolados dentro da floresta vivendo como há cinco mil anos. Esta sociedade multifacetada apresenta, entretanto, uma intensa identificação sócio-cultural. O sentimento de ser acreano é muito mais amplo que as fronteiras desse pequeno estado situado no extremo ocidental da Amazônia brasileira.

Esta característica, facilmente percebida por qualquer pessoa que conheça o Acre, é ainda mais surpreendente ao pensarmos que esta identidade histórica e cultural do povo acreano tem apenas 100 anos de reconhecimento. Um século apenas, breve, mas intenso o suficiente para forjar um povo consciente e orgulhoso de suas raízes. Alguma coisa deve haver de especial nesse lugar que criou as condições para que tivéssemos homens como Wilson Pinheiro e Chico Mendes. E a compreensão do que se passou no Acre nos anos 70 e 80 culminando com o assassinato de Chico Mendes não pode ser completa sem consciência da gênese desse povo e de sua trajetória histórica.

A luta com o meio

O povoamento do Acre, como de boa parte da Amazônia, foi feito sob o signo da malignidade do meio ambiente. Os exploradores europeus, já escolados por muitos séculos de expedições por todas as partes do planeta, eram os primeiros a anunciar o caráter maléfico da umidade, da imensa quantidade de insetos, da insalubridade geral das florestas tropicais. Principalmente a maior de todas, a Amazônia. No ambiente amazônico tudo é grande e farto; porque haveria de ser diferente com relação as suas febres e endemias?

Por isso, quando os primeiros nordestinos começaram a afluir para a Amazônia - e especialmente para o Acre - as notícias eram aterradoras. Os retirantes que fugiam da secas do sertão iam pelo caminho sendo assombrados pelas histórias de fome, do impaludismo (hoje mais conhecido como malária), do beri-beri e das feridas brabas que nunca saravam.

A terra do ouro negro, das terras inesgotáveis e inexploradas, das árvores fartas em um leite que valia como ouro e da fortuna rápida, logo se transformava diante dos olhos incrédulos dos imigrantes nordestinos, gaúchos, cariocas, espanhóis, italianos e sírio-libaneses em terrível “inferno verde”, devorador de almas.

Porém, para boa parte desses homens não havia retorno possível. Para os fugitivos da Guerra de Canudos, para os rebelados dos pampas gaúchos, para os tangidos pela seca, para os repudiados de toda sorte, não havia outro caminho possível senão a floresta que a todos acolhia e escondia. A única opção era mesmo encarar a solidão das colocações de seringa, dias e dias internados mata adentro, ou a falta de leis e de condições para o seu cumprimento nos raros povoados espalhados ao longo dos rios.

Seria necessário que uma figura de renome nacional como Euclides da Cunha, viesse ao Acre (em 1905) para desmentir os mitos sobre o clima e o meio amazônico. Através de artigos como “Um clima caluniado” e “Rios em abandono” - depois reunidos no livro “À margem da história” - Euclides deixou claro que a raiz dos males que afligiam a população espalhada ao longo dos rios acreanos não era o meio ambiente, mas as condições de transporte e de trabalho que matavam anualmente milhares de homens. Os vapores circulavam levando e trazendo gentes, mercadorias, animais e produtos do extrativismo florestal em total promiscuidade, sem a menor preocupação com a higiene e a saúde dos passageiros. A alimentação, tanto nessas embarcações como nos próprios seringais, era a pior possível. E o trabalho imposto aos seringueiros nos primeiros tempos era sobre-humano.

Apesar de tantos obstáculos, reais ou imaginários, há pouco mais de um século o povoamento do Acre se realizou e conseguiu fixar uma sociedade que vivia da e na floresta, longe dos mitos da insalubridade, descobrindo modos e estratégias para desfrutar de uma vida saudável em plena Amazônia. Isso aconteceu há apenas cento e vinte anos.

A luta com os outros

“Terras incontestavelmente bolivianas”. Assim se expressavam as autoridades brasileiras sobre as terras ao sul da linha oblíqua imaginária que, desde o Tratado de Ayacucho (1867), marcava a fronteira entre o Brasil e a Bolívia. Enquanto não houve ocupação efetiva da terra estava tudo bem, mas tão logo o mercado internacional demandou maior produção de borracha e a região foi povoada, a questão das fronteiras se tornou um grave conflito entre nacionalidades.

A partir de 1880 grandes levas de imigrantes nordestinos penetraram livremente naqueles territórios sem dono e sem lei. Os rios Purus e Juruá, como afluentes do rio Amazonas, davam acesso direto aos vapores provenientes de Belém e Manaus, trazendo milhares de brasileiros e levando toneladas de borracha. Já os bolivianos possuíam contra eles a direção de seus rios mais explorados que levavam para o rio Madeira e não para as terras acreanas, caminhos que passavam por grupos indígenas Pano muito aguerridos na defesa de seu território e uma sociedade andina que apresentava grandes dificuldades de povoamento na planície amazônica.

Ao surgirem as primeiras proclamações bolivianas de posse do Acre, em 1895, os brasileiros já estavam ali situados há pelo menos 15 anos. Com grandes e produtivos seringais que comerciavam sua borracha com as casas aviadoras de Manaus e Belém e através destas, com os centros consumidores na Inglaterra, França, Alemanha, Holanda e Estados Unidos. O povoamento brasileiro dos altos rios Purus e Juruá era já um fato consumado.

Ainda assim, mal se iniciava o ano de 1899, quando o governo da Bolívia tentou uma cartada decisiva: ocupar militarmente o rio Acre enquanto negociava um contrato de arrendamento com capitalistas europeus e norte-americanos interessados na exploração da borracha da região. Entretanto, a ocupação do Acre não seria tão fácil.

Logo, alguns brasileiros revoltados contra as duras medidas alfandegárias dos bolivianos decidiram contestar a administração estrangeira daquele território povoado por brasileiros. Assim, sem nenhum aviso, já em maio de 1899, ocorria a Primeira Insurreição Acreana, quando os bolivianos foram pela primeira vez expulsos de Puerto Alonso, o povoado que eles mesmos haviam fundado nas margens do rio Acre.

Enquanto isso tudo se dava, Luiz Galvez - espanhol de nascimento, mas cidadão do mundo por vocação - partia de Manaus para o Acre. Galvez levava o apoio velado do governo amazonense já que o governo brasileiro exigia o fim dos conflitos no Acre e a devolução do território aos bolivianos. E foi durante o encontro dos seringalistas do Acre com Galvez que surgiu uma solução para o impasse em que estavam metidos os revoltosos.

Com a palavra de ordem: “Já que nossa pátria não nos quer, criamos outra” Galvez e os brasileiros da região proclamaram criado o “Estado Independente do Acre”. Uma republica da borracha fundada no dia 14 de julho de 1899, de forma a reverenciar a Revolução Francesa que 110 anos antes havia estabelecido os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade fundamentais para a formação da cidadania burguesa contemporânea.

Foram oito meses de governo do Presidente Galvez. Meses nos quais se tentou organizar escolas, estabelecer normas de saúde e instituir uma legislação de exploração racional da borracha adaptada às condições ambientais locais. Oito meses de ordem em uma região que nunca havia conhecido a mínima organização política ou administrativa. Um Estado Independente cujo maior objetivo era se libertar do domínio boliviano para ser anexado ao Brasil.

Entretanto, o presidente Campos Sales estava mais preocupado com o funding loan, com a política dos governadores e com o apoio da oligarquia cafeeira do que com a sorte dos brasileiros da longínqua Amazônia ocidental. Assim, já em março de 1900, chegavam ao Acre três navios da marinha brasileira para prender Galvez e devolver aquelas terras à Bolívia. Ainda que os jornais das principais cidades brasileiras não se cansassem de denunciar o inteiro absurdo da situação.

Mas, mesmo com o apoio do governo brasileiro, as autoridades bolivianas não conseguiram pacificar a região. Os “revolucionários” brasileiros se mantiveram mobilizados e em constante atitude de confronto. O Governo do Amazonas, mesmo contra a vontade federal, continuava apoiando a luta acreana e chegou a financiar a famosa “Expedição dos Poetas”, poderosa em ideais e frágil em combate, cujo maior resultado foi ter mantido viva a luta contra a dominação boliviana.

Até que, nos primeiros meses de 1902, a notícia da constituição do Bolivian Syndicate desabou sobre a opinião pública nacional. Essa companhia comercial de capital anglo-americano estava arrendando o Acre pelo prazo de vinte anos com amplos poderes territoriais, militares e alfandegários. Seu contrato com a Bolívia implicava também na livre navegação internacional dos rios amazônicos e feria frontalmente a soberania brasileira sobre a Amazônia.

Enquanto o governo federal era sacudido de sua letargia pelo clamor nacional, os brasileiros do Acre mantinham a resistência armada contra os bolivianos. A notícia do Bolivian Syndicate precipitou os acontecimentos que se configuraram como uma verdadeira guerra.

De um lado o exército regular da Bolívia entrincheirado em alguns pontos estratégicos do rio Acre. De outro um exército de seringalistas e seringueiros organizados pelo ex-militar Plácido de Castro. Uma guerra que foi conflagrada no Xapuri, em agosto de 1902, e só foi concluída seis meses depois em Puerto Alonso com um saldo de quinhentos mortos em uma população de dez mil indivíduos.

Os brasileiros do Acre mais uma vez haviam expulsado os bolivianos e proclamado o Estado Independente do Acre como forma de obrigar o governo federal a considerar a região como litigiosa. E tamanha foi a pressão nacional que Rodrigues Alves, recém instalado no cargo de presidente, teve que reverter a posição oficial brasileira estabelecendo negociações que culminaram com a assinatura do Tratado de Petrópolis e anexaram o Acre ao Brasil em novembro de 1903.

Finalmente, depois de quatro anos de resistência armada, o Acre passou a fazer parte do Brasil e os brasileiros do Acre conquistaram o direito de se autodenominar acreanos. Isso aconteceu há apenas um século.

A luta com os mesmos

O governo do Amazonas esperava que as ricas terras acreanas lhe fossem concedidas depois de anexadas ao Brasil. Afinal de contas o Amazonas havia investido grandes somas na Revolução Acreana em suas diferentes etapas. Mas os acreanos haviam arriscado não só terras e fortunas, como suas próprias vidas nas trincheiras e varadouros da guerra contra os bolivianos. Era justo então esperar que o Acre se tornasse o mais novo estado da federação brasileira e seus cidadãos pudessem usufruir os mesmos direitos políticos básicos de qualquer brasileiro.

Contra todas as expectativas, o governo federal decidiu não atender a ninguém, senão a seus próprios interesses. No principio de 1904, o Acre se tornou o primeiro Território Federal da história brasileira. Exemplo de um novo sistema político-administrativo, não previsto na Constituição, que estabelecia que o Acre seria administrado diretamente pela Presidência da Republica, a quem caberia nomear seus governantes e arrecadar impostos.

Para justificar sua atitude o governo federal alegou que precisaria recuperar o capital utilizado para afastar o Bolivian Syndicate das negociações de limites. Também precisava cumprir as clausulas previstas no Tratado de Petrópolis: indenização de dois milhões de libras esterlinas e a construção da ferrovia Madeira-Mamoré. Por isso, toda a estupenda arrecadação de impostos sobre a borracha acreana teria que ser canalizada para os cofres da União.

O resultado imediato da surpreendente medida do governo brasileiro foi que a sociedade acreana passou a uma condição de tutela e dependência do poder executivo federal sem precedentes na história brasileira.

Como Território, o Acre não teria direito a uma Constituição própria como os outros estados federados; não poderia arrecadar seus impostos, dependendo dos repasses orçamentários do governo federal – que eram sempre infinitamente inferiores às necessidades de uma região onde tudo estava por fazer – e sua população não poderia votar para as funções executivas ou legislativas (que sequer existiam) na região.

Portanto, os acreanos que haviam conquistado pelas armas o direito de serem brasileiros, ao alcançar a vitória foram condenados a serem cidadãos de segunda categoria em seu próprio país. Enquanto isso o Presidente da Republica - de seu gabinete no Rio de Janeiro a mais de quatro mil quilômetros de distancia dos problemas acreanos - nomeava sucessivamente militares, magistrados ou políticos derrotados para governar o Território Federal do Acre.

Começava assim uma nova etapa de lutas da sociedade acreana. Agora não mais contra os estrangeiros, mas contra o governo de seu próprio país. Pois logo se perceberia que das fabulosas somas arrecadadas sobre a exportação de borracha e sobre a importação de mercadorias para abastecer os seringais, o governo federal mandava apenas uma pequena parte para a administração do Território, onde não havia escolas, hospitais ou quaisquer outras estruturas públicas. Além disso, os governantes nomeados para o Acre não possuíam o menor compromisso com aquela sociedade, aproveitando as verbas públicas em proveito próprio e afastando os acreanos do exercício de cargos políticos ou administrativos. A situação era agravada ainda pela distancia e isolamento das cidades acreanas e pela ineficiência do poder judiciário.

A autonomia política do Acre tornava-se então a nova e necessária bandeira de luta do povo acreano. Na verdade, era uma aspiração muito simples: a transformação imediata do Território Federal do Acre em Estado autônomo da federação brasileira. E para lutar por essa causa começaram a ser fundados clubes políticos e organizações de proprietários e/ou de trabalhadores em diversas cidades como Xapuri, Rio Branco e Cruzeiro do Sul.

Em poucos anos a situação social acreana se agravaria muito. Não bastasse a concorrência da borracha que começava a ser produzida no sudeste asiático, a partir de sementes amazônicas contrabandeadas pelos ingleses, os desmandos cometidos pelos governantes nomeados para o Acre obrigaram a sociedade a reagir.

A radicalização dos conflitos logo produziria novas cicatrizes no tecido social acreano. Plácido de Castro, um dos líderes da oposição ao governo federal, foi assassinado (ainda em 1908) numa emboscada que todos sabiam de antemão que iria ocorrer. Em Cruzeiro do Sul, em 1910, a primeira revolta autonomista depôs o Prefeito Departamental do Alto Juruá, proclamando a criação do Estado do Acre. Cem dias depois, tropas federais atacaram os revoltosos e restabeleceram a “ordem” e a tutela. Sena Madureira em 1912 e Rio Branco em 1918 também conheceram revoltas autonomistas que foram igualmente sufocadas à força pelo governo brasileiro.

A sociedade acreana viveu então um dos períodos mais difíceis da sua história. Os anos 20 foram marcados pela completa decadência econômica provocada pela queda dos preços internacionais da borracha graças à produção infinitamente mais barata dos seringais de cultivo asiáticos. Os seringais acreanos entraram em falência, uma boa parte dos seringueiros começou a voltar para suas regiões de origem e a desesperança geral transformou o Acre num “igapó de almas” segundo a descrição de Océlio de Medeiros no livro “A Represa”. Toda a imensa riqueza acumulada durante os anos áureos da borracha amazônica havia sido drenada para os cofres federais relegando o Acre ao completo abandono oficial.

Era tempo de se buscar novas formas de organização social e de encontrar novos produtos que pudessem substituir a borracha no comércio internacional. Os seringais se transformaram em unidades produtivas mais complexas. Teve início a pratica de uma agricultura de subsistência que diminuía a dependência de produtos importados, uma intensificação da colheita e exportação da castanha e o crescimento do comércio de “peles de fantasia”, como era chamado então o couro de animais silvestres da fauna amazônica. Começavam assim, impulsionadas pela necessidade, as primeiras experiências de manejo dos recursos florestais acreanos.

Além disso, a escassez da mão de obra nordestina levou ao emprego crescente das comunidades indígenas remanescentes nos seringais e os comerciantes sírio-libaneses substituíram as casas aviadoras de Belém e Manaus na função de abastecer os barracões e manter ativos os seringais acreanos. Entretanto, a situação de tutela política sobre a sociedade acreana se mantinha inalterada.

Nem mesmo o novo período de prosperidade da borracha, provocado pela Segunda Guerra Mundial, foi capaz de modificar esse quadro. Durante três anos (1942-1945) a “Batalha da Borracha” trouxe milhares de famílias nordestinas para o Acre, repovoando e enriquecendo novamente os seringais.

Essa melhoria do contexto econômico fez com que os anseios autonomistas ganhassem nova força. Mas os acreanos teriam que esperar ainda quase vinte anos para ver sua antiga aspiração de autonomia política ser realizada. Só em 1962, os acreanos conseguiram através de uma longa batalha legislativa transformar o Território em Estado.

O Acre, que havia sido o primeiro Território Federal de nossa história, foi também o primeiro a ser “elevado” à categoria de estado, já que o governo brasileiro havia estendido o sistema territorial a outras regiões (talvez não por coincidência sempre na Amazônia: Rondônia, Amapá, Roraima).

Foram 58 anos de resistência, entre 1904 e 1962, até que o movimento autonomista finalmente conquistasse para os acreanos os mesmos direitos básicos e essenciais de qualquer cidadão brasileiro. Pela primeira vez na história os acreanos poderiam exercer plenamente sua cidadania. Isso aconteceu há apenas quarenta anos.

A luta com os novos

No principio dos anos sessenta os seringais acreanos ainda estavam em plena atividade apesar dos preços mais baixos da borracha no mercado externo. Anos de tutela federal haviam produzido uma forte dependência do Acre em relação aos repasses orçamentários da União. Portanto, a criação do Estado do Acre e a possibilidade da primeira experiência democrática da sociedade acreana anunciavam grandes mudanças e o início de um novo tempo para a região.

Nas eleições realizadas ainda em 1962 confrontaram-se os dois grandes e hegemônicos partidos da época. Pelo PSD a candidatura ao governo do estado coube a sua maior liderança: Guiomard Santos, mineiro de nascimento, militar que havia sido governador do Território no fim da década de 40, dominou a cena política acreana por mais de vinte anos e se elegeu por três vezes consecutivas para o cargo de Deputado Federal. Como se não bastasse, foi o autor da lei 4.070 que transformou o Acre em Estado. O PTB, a princípio dividido, acabou escolhendo a surpreendente candidatura de um jovem acreano de Cruzeiro do Sul: o professor José Augusto de Araújo de apenas 32 anos.

O que parecia uma barbada política, a vitória fácil de Guiomard Santos, tornou-se uma enorme surpresa. José Augusto foi eleito o primeiro governador constitucional da história do Acre. Ou seja, já na primeira oportunidade em que os acreanos puderam decidir seus rumos políticos, deixaram claro seus anseios e escolheram um acreano nato para governar o então mais novo estado da federação brasileira.

Entretanto, o peso da história se revelou mais uma vez opressivo para a sociedade acreana. Menos de dois anos depois da eleição de José Augusto, o Brasil sofreu um golpe militar que mudaria também, e bruscamente, os rumos da história do Acre. Diante de um governo com problemas políticos internos, apesar de seu caráter popular, o capitão do exército Edgar Cerqueira cercou o Palácio Rio Branco e exigiu a renuncia de José Augusto. Acabava, ainda em 1964, com pouco mais de um ano de duração, o primeiro governo constitucional e democrático do Estado do Acre.

Mais uma vez a sociedade acreana seria obrigada a conviver com governantes indicados pelo poder federal, condição que perduraria até 1982, quando a “abertura lenta, gradual e segura” voltaria a permitir novas manifestações democráticas, não só no Acre, como no resto do país.

Entretanto, as conseqüências da Ditadura Militar para o Acre, como para boa parte da Amazônia brasileira, foram muito mais profundas e dolorosas do que aquelas relativas ao exercício dos direitos políticos. O início da década de 70 foi marcado por uma nova diretriz governamental para o “progresso econômico” da região. Sob o discurso de “integrar para não entregar” foi estimulada uma nova ocupação da Amazônia, com grandes projetos mineradores, madeireiros e agropecuários recebendo financiamento internacional e incentivos fiscais em nome de uma pretensa defesa da soberania brasileira.

No Acre o resultado mais evidente dessa política desenvolvimentista foi a “invasão dos paulistas”, como eram chamados genericamente os novos imigrantes que vinham do sul do país atrás de terras fartas e baratas. Assim, o Acre ajudava a aliviar os conflitos rurais da região Sul e ganhava uma nova política econômica que, segundo seus apologistas, seria capaz de substituir com vantagens o já combalido extrativismo da borracha.

Com a transformação do Banco da Borracha em Banco da Amazônia e o corte de outras fontes de financiamento, muitos seringais faliram e foram vendidos por preço muito baixo. Em suas terras instalou-se a agropecuária. No Rio de Janeiro e em São Paulo, a propaganda oficial anunciava o Acre: “um sul sem geadas, um nordeste sem seca” e, mais tarde, “o filé mignon da Amazônia”. E foram muitos os empresários que acreditaram no novo eldorado amazônico trazendo para cá todo seu capital. Mas junto com esses vinham também um sem-número de grileiros e especuladores.

O resultado de todo esse processo de mudança do eixo econômico da Amazônia brasileira acabou arrebentando sobre o lado mais fraco: as populações tradicionais da floresta. Repentinamente, índios, seringueiros, ribeirinhos e colonos viram suas terras sendo invadidas e devastadas em nome de um novo tipo de progresso que transformava a floresta em terra arrasada.

Acelerou-se a migração para as cidades. Mas a maior parte da população migrante não tinha outra profissão além de colher os produtos da floresta. A maioria sequer sabia ler e escrever, tamanho era o abandono oficial em que tinham vivido até então. Expulsas da terra, muitas vezes por jagunços armados que ateavam fogo em seus barracos, milhares de famílias encostaram-se na periferia urbana, formando assim os primeiros bairros populares em terrenos insalubres onde a miséria e a doença tinham campo fértil para se espalhar.

Nos anos 70, a sociedade acreana vivia novamente um momento de grande tensão social. Nem mesmo as tentativas do Governo Geraldo Mesquita de reverter as políticas implementadas por seu antecessor Vanderlei Dantas, foram suficientes para deter o avanço do novo modelo econômico proposto pelo governo federal para a região.

A partir de 1975 as populações tradicionais da floresta começaram a se organizar e a desenvolver diferentes estratégias de resistência. Foram fundados os primeiros sindicatos de trabalhadores rurais em Brasiléia, Xapuri, Rio Branco e Sena Madureira. A implantação da primeira Ajudância da Funai no estado possibilitou que se iniciasse o processo de demarcação e regularização das terras indígenas acreanas. A igreja católica do vale do Acre, de perfil progressista, reforçou a luta popular com as Comunidades Eclesiais de Base. Intelectuais, artistas, estudantes e trabalhadores em geral criaram organizações civis e um intenso movimento social em Rio Branco. Jornalistas e militantes da oposição criaram o jornal “O Varadouro” para noticiar os graves problemas sociais, especialmente os conflitos pela posse da terra.

Não foi uma luta fácil e muito menos rápida. Os conflitos foram se tornando cada vez mais explosivos e perigosos. Em 1980, Wilson Pinheiro, presidente do Sindicato de Trabalhadores Rurais de Brasiléia, foi assassinado. Muitas outras mortes ocorreriam, culminando com a de Chico Mendes, em 1988.

A partir desse assassinato as coisas começaram a mudar de verdade. O Movimento Ambientalista havia tornado Chico Mendes uma figura pública conhecida e reconhecida em todo o mundo por sua luta em defesa da floresta e de seus povos. Sua morte criou uma enorme pressão sobre os organismos financeiros internacionais, que foram obrigados a rever critérios de investimento na Amazônia. Mais uma vez os acreanos haviam sido obrigados a lutar até a morte para defender sua integridade, seus modos de vida tradicionais, seu direito à cidadania e à autodeterminação. Isso aconteceu há apenas quinze anos.

Novas lutas

Se olharmos a história acreana desde seus primórdios e procurarmos as linhas de permanência e de mudança do povo que fez das florestas do ocidente amazônico seu lugar no planeta, perceberemos que existe uma continuidade histórica, social, política e cultural. O acreano é um povo que luta. Nas suas lutas, afirma sua vontade de escolher livremente seu caminho. Recusa modelos impostos de fora pra dentro, de cima pra baixo. Busca um modelo de desenvolvimento verdadeiramente justo e sustentável. E vai criando, em seu caminho de lutas, uma profusão de símbolos e paradigmas.

As criações mais recentes desse povo, como o Governo da Floresta e a florestania, já se tornam referências para outras regiões do Brasil e até para outros países. Mas isso está apenas começando a acontecer, é missão para os historiadores que virão.

Rio Branco, não é uma cidade qualquer. Além de ser o mais antigo núcleo urbano de todo o Acre, logo se constituiu como a maior e mais importante cidade acreana sendo por isso escolhida como a capital do antigo Território Federal e do Estado do Acre. Mas Rio Branco ainda aguarda a elaboração de pesquisas e a organização de sua história com a abrangência e importância que de fato possui para a configuração da sociedade acreana.



Devido ao caráter ordenador do espaço urbano e da dinâmica social do Plano Diretor, é imprescindível ao menos pensarmos a cidade de Rio Branco em relação a sua história territorial, ao seu processo de ocupação do espaço e configuração de uma malha urbana diferenciada do meio florestal circundante.



1º Período – 1882 / 1908 – de seringal a cidade



Este primeiro período da história urbana de Rio Branco é marcado por três características centrais. A primeira diz respeito à transformação do seringal Volta da Empreza no povoado denominado Villa Rio Branco. A segunda característica é que foi exatamente nesta época que Rio Branco alcançou a condição de liderança política e econômica do Acre que lhe valeria posteriormente a condição de capital. Finalmente, a terceira característica fundamental da cidade nascente foi que neste período o povoado da Volta da Empreza – Villa Rio Branco esteve restrito a uma estreita faixa de terras na margem direita do rio Acre (atual 2º Distrito).



O Seringal Volta da Empreza foi fundado na margem direita do rio Acre, em 28 de dezembro1882, pelo cearense Neutel Maia. Mas logo se diferenciou dos outros seringais da região ao se tornar um porto muito freqüentado pelos vapores que transitavam pelo rio durante a época das cheias. Neutel Maia criou então, já em 1884, uma casa comercial denominada Nemaia e Cia. para atender aos vapores, pequenos seringais e realizar a intermediação de gado boliviano para o abastecimento da região. Espontaneamente, portanto, a Volta da Empreza deixou de ser um seringal como todos os outros do Acre para se tornar um povoado, o que equivale dizer que muito cedo a Volta da Empreza deixou de ser um espaço privado (de domínio exclusivo do seringalista) para se tornar um espaço publico onde outros comerciantes ou indivíduos podiam atuar ou se fixar.



Por isso, além de se tornar a principal referencia comercial do médio rio Acre, o povoado da Volta da Empreza foi palco preferencial de diversos movimentos da guerra entre acreanos e bolivianos que abalou a região no final do século XIX e principio do XX. Tornou-se assim a sede do Acre Setentrional durante a ocupação militar de 1903 e, logo após a anexação das terras acreanas através do Tratado de Petrópolis, foi alçada a condição de sede do Departamento do Alto Acre no regime territorial recém implantado. Passou então a ter o nome de Villa Rio Branco, em homenagem ao articulador dos Tratados de limites que tornaram o Acre parte do Brasil.



Temos, portanto, neste período de 1882 a 1908 pelo menos três fases distintas na história da cidade, a saber: 1ª Fase - 1882 / 1898 – durante a qual o seringal se torna um povoado e se consolida comercialmente na região; 2ª Fase – 1899 / 1903 – na qual os diversos acontecimentos da Revolução Acreana levam a Volta da Empreza a se tornar o centro do poder político no vale do rio Acre; 3ª Fase 1904 / 1908 – quando a agora denominada Villa Rio Branco consolida sua liderança política e econômica tornando-se a sede do Departamento do Alto Acre.



Em relação à configuração espacial de Rio Branco, durante todo este período a área urbana da cidade se restringiu a uma estreita faixa de terras na margem direita do rio Acre, que correspondia a uma parte da área pertencente a Neutel Maia. Inicialmente foi a Casa Nemaia e Cia., situada diante da enorme gameleira que assinalava o porto da Volta da Empreza, que serviu como referencia para a construção de uma série de outros prédios seguindo o traçado da margem do rio. Formou-se assim um primeiro arruamento onde se estabeleceram hotéis, restaurantes, casas comerciais e residenciais construídos com a madeira que era abundante nos arredores desta primeira rua do povoado (atualmente chamada de Rua Eduardo Assmar).



Com a extensão e adensamento desta primeira rua organizaram-se três áreas distintas que se constituíram como os primeiros bairros do povoado. Uma pequena área residencial de trabalhadores que ocupava as terras da volta do rio Acre, acima da Gameleira, e que era denominada Canudos. O centro do povoado da Volta da Empreza propriamente dito que era constituído pela rua ao longo da margem do rio no trecho entre a Gameleira e o local onde hoje está a cabeceira da Ponte Metálica. E, finalmente, formou-se outro pequeno bairro de trabalhadores que recebeu o sintomático nome de rua África por abrigar os negros habitantes da cidade. Este ultimo bairro era a extensão da única rua da cidade na direção do igarapé da judia e era formado quase que exclusivamente por precárias casas de palha.



Ainda surgiria um quarto “bairro” (para empregar um termo de época) no povoado da Volta da Empreza – Villa Rio Branco. Isto se deu durante a ocupação militar de 1903, quando diante da necessidade de aquartelar tropas na área, o comandante Gen. Olimpio da Silveira decidiu faze-lo distante do centro do povoado escolhendo para tanto uma área periférica, rio acima, e ali acampou o 15º Batalhão de Infantaria do Exército. A presença de tropas atraiu pequenos comerciantes que constituíram um novo arruamento, também ao longo da margem do rio, para atender as necessidades dos soldados dando origem ao bairro Quinze, cuja denominação permanece até hoje.



Ou seja, ao longo deste primeiro período de formação da área urbana de Rio Branco, podemos identificar não só sua consolidação um espaço diferenciado em relação aos seringais da região como também a configuração de um primeiro ordenamento espacial que refletia a organização da própria sociedade com bairros diferenciados para os trabalhadores ou para os “negros” da cidade.



2º Período – 1909 / 1940 – Uma cidade dividida



Este período da história da cidade possui alguns marcos fundamentais de diferentes naturezas. Seja no que diz respeito aos seus aspectos econômicos devido ao fim do ciclo da borracha a partir de 1913, seja em relação ao seu papel político já que Rio Branco se tornou a capital de todo o território a partir de 1920, seja no que se refere a ampliação de sua malha urbana pela incorporação de uma grande área de terras da margem esquerda já a partir de 1909. Portanto, a definição de fases que unifiquem as diversas características deste período é mais difícil que em relação ao período anterior.



Como já vimos, até 1908, a Villa Rio Branco, sede do Departamento do Alto Acre, estava totalmente localizada na margem direita do rio Acre. Uma área plana e favorável à abertura das primeiras ruas, entretanto, muito baixa e alagável na época das cheias do rio Acre. Além disso, por trás do alinhamento de casas do povoado a floresta foi gradativamente sendo substituída por uma área de pasto para abrigar o comércio de gado que, como já vimos, foi muito importante para Rio Branco. Essas características topográficas somadas a questões políticas relacionadas à luta autonomista que vinha sendo travada no Território Federal levaram ao questionamento da condição de capital do Departamento desfrutada por Rio Branco e deu origem a diversas tentativas de mudança da sede departamental.



Em 1909, em meio a um conturbado contexto político, o Prefeito Departamental do Alto Acre Cel. Gabino Besouro decidiu tomar uma parte das terras do Seringal Empreza situado na margem esquerda do rio Acre defronte à Villa Rio Branco. E nestas terras definiu um novo arruamento que começando na margem do rio seguia até o limite da atual avenida Ceará. Nestas terras altas da margem esquerda Gabino Besouro quis fundar uma nova cidade chamada Penápolis, em homenagem ao presidente Afonso Pena, e que passaria a se constituir na nova sede da Prefeitura Departamental do Alto Acre.



Entretanto não havia como ignorar a Villa Rio Branco, do outro lado do rio, com toda sua pujança comercial e social, e pouco tempo depois os dois lados da cidade eram unificados e Penápolis passava a se constituir apenas como mais um novo bairro da agora “cidade” de Rio Branco situada em ambas as margens do rio Acre.



Desde então foi sendo estabelecida lentamente uma infra-estrutura oficial em Penápolis que logo passaria a ser denominado 1º Distrito, em contraposição ao lado velho da cidade que passou a ser conhecido como 2º Distrito. Ou, como já se escreveu, uma cidade dividida entre o lado oficial e o lado comercial.



Nem o acirramento dos movimentos autonomistas, nem a crise da borracha instalada a partir de 1913, foram suficientes para alterar significativamente o papel econômico e político de Rio Branco no contexto acreano. Pelo contrário, nesta época se consolidou o predomínio desta cidade frente às outras cidades acreanas que, com a exceção de Xapuri, eram bem mais novas. Tanto assim que na reforma administrativa de 1920, que extinguiu os departamentos, coube a Rio Branco a primazia de se tornar a capital de todo o Território Federal do Acre centralizado. Com isso, Rio Branco garantiu maiores investimentos oficiais em relação aos outros povoados, cidades ou municípios acreanos, o que a levaria, entre outras coisas, até a atual condição na qual concentra metade de toda a população do Estado do Acre.



Tendo em vista que nosso principal interesse nesse texto é tentar compreender a dinâmica da formação urbana, podemos vislumbrar duas fases para este período da história de Rio Branco, a saber: 1ª Fase – 1909 / 1930 –consolidação de Penápolis pela ocupação da malha urbana planejada entre o rio Acre e a avenida Ceará; 2ª Fase – 1931 / 1940 – estagnação da expansão urbana tanto no 1º Distrito (ex-Penápolis), quanto no 2º distrito da cidade.



Ou seja, a partir de 1909, com a abertura de quatro ruas (Epaminondas Jácome, Benjamin Constant, Marechal Deodoro e a atual Getulio Vargas) começou um longo e lento processo de ocupação de lotes urbanos na margem esquerda do rio Acre até o limite da atual avenida Ceará. Somada a essa estreita faixa urbana, entre 1909 e 1913 foram abertas três colônias agrícolas na região atualmente conhecida como baixada da Sobral.



Por outro lado, a área urbana da margem direita do rio Acre (2º distrito) não tinha como se expandir espacialmente pela presença de muitos terrenos baixos e alagadiços e de áreas particulares ocupadas por pastos. Ao mesmo tempo em que desfrutava de grande prosperidade econômica devido à pujança da economia da borracha e a vitalidade do comercio dominado por portugueses, espanhóis e sírio-libaneses. Pelo menos até que a grave crise da borracha lançasse Rio Branco e o Acre num difícil período de estagnação econômica e social.



Só no final da 1ª Fase deste período, entre 1927 e 1930, a cidade de Rio Branco conheceria uma época de grandes mudanças urbanas com o Governo Hugo Carneiro. Esse paraense implementou um programa de construção de grandes prédios de alvenaria que mudou a paisagem da cidade. Sob o signo da modernização foram erguidos o Mercado Municipal na beira do rio, o Palácio Rio Branco, o Quartel da Polícia, a Penitenciária (atual prefeitura municipal) e o Stadium do Rio Branco no limite da cidade que acabava na atual avenida Ceará.



A partir de 1930, a organização espacial de Rio Branco permaneceria basicamente a mesma por toda a década se restringindo a um relativo adensamento da área urbana já ocupada. Apesar de ser possível registrar um lento crescimento da área de influencia da cidade sobre as terras do antigo Seringal Empreza que não haviam sido desapropriadas em 1909 e que limitavam a expansão da cidade para além da atual avenida Ceará. Um crescimento que se dava sob a forma de arrendamento dessas terras para ex-seringueiros desencantados com a crise e que queriam tentar a sorte como agricultores.



3º Período – 1941 / 1970 – Colônias/bairros uma cidade em expansão



A Segunda Guerra Mundial trouxe não só novas esperanças para a decadente economia extrativista como um novo alento para a sociedade acreana através dos milhares de imigrantes nordestinos que voltaram a vir para o Acre. Especialmente a partir de 1942 com o início da Batalha da Borracha os seringais voltaram a produzir, o comércio voltou a prosperar e as cidades acreanas ficaram muito mais agitadas.



No antigo bairro Quinze a já falida Usina de Castanha se tornou alojamento dos soldados da borracha em transito para os seringais, na rua 17 de novembro (ou Bairro Beirute) muitos comerciantes sírio-libaneses haviam enriquecido e se tornado seringalistas e no Palácio Rio Branco os planos governamentais voltaram a ser grandiosos.



E foi sob esse novo panorama que o Governador Oscar Passos efetivou em 1942 a compra das terras remanescentes do antigo Seringal Empreza para a implantação de novas colônias agrícolas no entorno da cidade. Entretanto, até 1945 todos os desejos estavam firmemente direcionados para os seringais e pouca atenção e recursos sobravam paras cidades acreanas. Por isso, o novo plano de colonização organizado pelo Engenheiro Pimentel Gomes teve que esperar um momento mais propicio para sua efetiva implementação, ficando restrito a apenas duas colônias instaladas em 1943: São Francisco e Apolônio Sales, sendo que a segunda esteve por alguns anos abandonada.



Só com o fim da Batalha da Borracha e o principio do Governo Guiomard Santos em 1946 teve início a implantação das diversas colônias agrícolas em terras do antigo Seringal Empreza, num processo que se estendeu durante toda a década de 50. Mas não só. Nesse mesmo período uma parte das terras do Seringal Empreza ao norte da atual avenida Ceará foi definida como “Zona Ampliada” e foi dividida em lotes urbanos para o futuro crescimento da área urbana da cidade.



Cabe ressaltar que com isso o governo do Território Federal do Acre tentava estancar a partida de trabalhadores com o fim da Batalha da Borracha e o retorno à crise do extrativismo. Para tanto em diversas colônias agrícolas foi instalada uma infra-estrutura mínima para dar suporte aos colonos e suas famílias, tais como escolas, núcleos mecanizados para beneficiamento da produção e postos de saúde.



Guiomard Santos foi responsável também por um grande programa de obras publicas que alterou mais uma vez a paisagem de Rio Branco, bem como de outras cidades acreanas. O Aeroporto Salgado Filho (Aeroporto Velho), a Maternidade Bárbara Heliodora, o colégio Eurico Dutra, foram algumas das novas construções de Guiomard Santos, além da conclusão das obras do Palácio Rio Branco e da reforma do prédio da antiga penitenciaria que foi transformado no Hotel Chuí.



A isso tudo se somava ainda a implantação de infra-estrutura voltada para a produção, como a Cerâmica oficial que produzia telhas, tijolos e pisos para a construção civil, a Estação Experimental que produzia mudas e repassava técnicas de cultivo, o Aviário que produzia e distribuía aves, suínos e até abelhas para os colonos.



Com isso, o governo Guiomard Santos transformou Rio Branco muito mais profundamente do que Gabino Besouro e Hugo Carneiro haviam conseguido anteriormente. Dois outros elementos, aparentemente menores e secundários são simbólicos para esta abordagem da história da cidade e provam essa afirmação. Foi na gestão de Guiomard Santos que foram erigidas a Fonte Luminosa e o Ipase, o primeiro conjunto residencial da cidade. Estes dois elementos passaram a ser marcantes para a história de Rio Branco por diferentes motivos. O primeiro porque desde então povoou a mente e os corações de todos os riobranquenses cujas infâncias, mocidades e velhices estão repletos do encanto proporcionado por suas águas coloridas. Enquanto que o segundo parece ter dado origem a um modelo de intervenção urbana pelo poder público através da construção de conjuntos residenciais que parece ter sido muito importante daí por diante.



Foi nesse período, portanto, que Rio Branco alcançou algumas das principais características que viria a desenvolver em décadas posteriores. Os equipamentos instalados pelo governo territorial e as colônias agrícolas serviram como novos pontos de atração e fixação urbana. A Cerâmica, o Aviário, a Estação Experimental, o Aeroporto Velho, a colônia São Francisco, a Fazenda Sobral, a colônia Apolônio Sales, entre outros, deram origem a alguns dos atuais bairros da cidade, revelando boa parte dos fluxos e processos sociais a que a cidade esteve submetida desde então. Ao mesmo tempo em que deixam claros os motivos que levaram o 2º distrito da cidade a neste período finalmente ser superado em importância pelo 1º distrito em relação à vida orgânica da cidade.



Devemos aguardar a realização de novos estudos, porém, para poder definir fases que organizem melhor esse terceiro período do urbanismo de Rio Branco e sejam capazes de ajudar na compreensão dos elementos constituintes deste processo.



4º Período – 1970 / 1998 – Invasões/bairros uma cidade em explosão



No principio dos anos 70 a conjugação da infinita crise do extrativismo da borracha e dos anos de chumbo da Ditadura Militar teve efeito devastador sobre o Acre suas cidades. O governo Vanderlei Dantas decidido a modificar o eixo de desenvolvimento econômico regional estimulou a vinda de grandes empresas, fazendeiros e especuladores de terras para o Acre, em sintonia com a nova política proposta pelo regime militar. Os seringalistas falidos e sem crédito não tiveram como resistir e acabaram vendendo enormes seringais por preços muito baixos. Em poucos anos um terço de todas as terras acreanas mudaram de mãos.



Os novos donos da terra, conhecidos regionalmente como “paulistas”, faziam parte da frente de expansão da fronteira agrícola que atingiu os estados do centro-oeste antes de atingir Rondônia e Acre através do programa Polonoroeste e que previa, entre outras coisas, a abertura da Br-364. Esta frente foi composta não só por fazendeiros e grandes empresas, mas também por grileiros de terras, madeireiros e por trabalhadores rurais do sul do país.



Ao atingir o Acre essa frente de expansão causou uma verdadeira implosão da estrutura social acreana na área florestal. O desmatamento promovido pelas madeireiras e a transformação dos seringais em fazendas levaram ao êxodo milhares de famílias que há décadas habitavam a floresta, dela dependendo para obter o seu sustento. Esse novo fluxo migratório campo-cidade promoveu uma verdadeira explosão das cidades acreanas, em especial de Rio Branco que por sua condição de capital atraia a maioria dos seringueiros, castanheiros e ribeirinhos expulsos de suas colocações em todo o estado do Acre.



Teve início então a pratica das “invasões”, nome regional usado para designar terrenos públicos ou privados que eram invadidos por trabalhadores para construção de moradias, dando origem a novos bairros populares sem nenhuma infra-estrutura básica. Mesmo as tentativas oficiais de reverter a política de atração dos investidores “paulistas” para o Acre se revelaram insuficientes para deter o processo de migração do campo e o inchamento das cidades. Mesmo as políticas de habitação popular implementadas nos anos 70 a 90 parecem não ter resultado em benefícios concretos para os segmentos sociais que não possuíam profissão definida e nem renda assegurada, mas atenderam sobretudo as camadas médias da população.



É necessário, entretanto, chamar atenção para o fato de que tanto o fenômeno das “invasões”, quanto as conseqüências das políticas publicas de habitação implementadas neste período precisam ser melhor estudadas para esclarecer esses processos e sua importância na formação da cidade.



Por outro lado duas características desse período, no que se refere a formação urbana da cidade, parecem bastante claras. A primeira é que apesar da “invasão” se constituir como um novo mecanismo espontâneo e desordenado de abertura de bairros, ele deve ter se orientado em linhas gerais pela localização das colônias agrícolas e dos bairros que já estavam em formação na época em que ocorreram. Ou seja, os bairros oriundos de colônias agrícolas ou equipamentos urbanos que surgiram no período anterior continuaram atuando como focos de atração e fixação dos moradores da cidade.



A segunda característica diz respeito ao fato de que muitos dos fenômenos sociais que estavam ocorrendo na área florestal do estado passaram a acontecer também em Rio Branco. É o caso, por exemplo, dos confrontos entre lideranças populares e grileiros de terras como os que levaram ao assassinato de João Eduardo em 1981, como já tinham levado a morte de Wilson Pinheiro em 1980 e ainda iria levar ao atentado a Chico Mendes em 1988, deixando claro que o nível de tensão social tanto nas florestas quanto nas cidades acreanas era extremamente alto então.



Diante desse contexto não é de estranhar que o quadro geral das cidades acreanas e de Rio Branco em especial tenha sido de degradação das condições de vida em todos os setores. Neste período Rio Branco não cresceu, explodiu. Se ao longo de 90 anos de sua história as dinâmicas geradas na cidade tinham dado origem a pouco mais de uma dezena de bairros, entre 1970 e 1999 esse número iria passar de 150 bairros.



Novos bairros originados de invasões desordenadas sem a mínima infra-estrutura de água, saneamento, luz, acesso, além de por vezes estar situados em locais alagáveis ou impróprios, como nas novas áreas ocupadas no 2º Distrito (Cidade Nova, Taquari, Santa Terezinha/bostal, etc), ou mesmo a partir de loteamentos clandestinos e conjuntos residenciais mal projetados e/ou implantados. Uma realidade, enfim, que estabeleceu enormes desafios a serem enfrentados para a recuperação da qualidade de vida dos cidadãos de Rio Branco.



5º Período – 1999 / 2005 – O principio do reordenamento urbano



Desde 1999 estão sendo realizadas diversas intervenções na malha urbana de Rio Branco, especialmente nas vias estruturantes, que estão modificando e melhorando os fluxos internos da cidade, bem como o acesso aos bairros mais distantes do centro. Além disso, obras de revitalização do centro mais antigo da cidade e de implantação de equipamentos como o Parque da Maternidade parecem apontar o início de um novo período da história da formação urbana de Rio Branco, o que só poderá se constatado mais corretamente no futuro.

A Amazônia sul-ocidental é habitada há milhares de anos por diferentes povos nativos que fizeram da grande região dos altos rios acreanos o seu território de viver, sonhar e cultivar raízes. Muitos desses povos foram engolidos pela floresta imensa sem deixar vestígios de sua passagem pela terra. Outros enfrentaram inimigos poderosos mas resistiram o suficiente para ainda saber quem são. Porém, esses povos milenares permanecem ainda hoje, em grande parte, desconhecidos da maioria da sociedade acreana. É preciso perceber que nossa história guarda muitas das marcas que foram escritas precisamente por estes povos.



Os tempos da história indígena



Quando é preciso justificar o direito dos povos indígenas ao seu território tradicional se diz que essas terras já pertenciam a eles desde tempos imemoriais. Porém, esta idéia reforça o preconceito segundo o qual os povos indígenas não possuem história, porque não dominam a escrita e sua memória é baseada na tradição oral. Talvez fosse mais sincero admitir que somos nós, os não-índios, que temos dificuldade de compreender a história indígena.



A melhor prova disso é que do longo e consistente trabalho de educação diferenciada que a CPI-AC, e mais recentemente também o governo estadual, desenvolvem junto às comunidades indígenas acreanas e do sul do Amazonas, emergiu uma interessante forma de organizar a história nativa da região. E quando olhamos para essa temporalidade estabelecida a partir das referências indígenas percebemos que ela conta também a história da própria sociedade acreana.



Este texto é uma tentativa de reunir algumas informações sobre os povos nativos do Acre utilizando uma adaptação daquela temporalidade utilizada nas escolas indígenas. Aos tempos das malocas, das correrias, do cativeiro, dos direitos e do presente acrescentamos o tempo de antigamente para incluir as informações da pré-história. Com isso não pretendemos mais do que acrescentar profundidade a essa história de um povo que não desistiu nunca de lutar pelos seus direitos, um povo formado igualmente por brancos e índios.



Tempo de antigamente



A longa história do povoamento humano do Acre provavelmente começa entre 20.000 e 12.000 anos atrás, quando os primeiros grupos humanos provenientes da Ásia chegaram de sua longa migração até a América do Sul. Esses grupos humanos perseguiam as grandes manadas de animais gregários que durante a idade do gelo se espalhavam pelas vastas savanas do mundo. A Amazônia era então uma ampla extensão dessas savanas, com apenas algumas manchas de floresta ao longo dos rios que cortavam as terras baixas.



Era o tempo dos grandes animais como o mastodonte, a preguiça gigante (megatherium), o toxodonte e diversos outros exemplares de megafauna que serviam de base alimentar para aqueles bandos de caçadores nômades. Esses animais se extinguiram com o fim do pleistoceno, a ultima das grandes idades do gelo, e seus fósseis são localizados ainda hoje nos barrancos de muitos dos rios acreanos. Apesar de ainda não terem sido encontrados vestígios concretos da presença humana na região durante esse mesmo período, podemos imaginar que o homem aqui já estivesse, junto com os animais que caçava.



Com o passar do tempo, a partir de 12.000 anos atrás, o clima do planeta começou a esquentar. Isso ocasionou um aumento da umidade e expansão dos sistemas florestais. Enquanto os últimos remanescentes da megafauna desapareciam por causa da retração das áreas de pastagem, a floresta se expandia. Isso favoreceu a proliferação de uma fauna terrestre de pequeno porte e da fauna aquática através do crescimento dos cursos d’água que ficaram cada vez mais caudalosos.



Esse tempo de profundas mudanças climáticas e ambientais deu oportunidade para o surgimento de novas formas de organização social. Os grupos humanos pré-históricos da América passaram a contar com recursos alimentares mais diversificados, graças ao ambiente de florestas tropicais, e lentamente começaram a desenvolver as primeiras experiências de domesticação de plantas e animais. Enquanto na América Central e nos Andes teve inicio o cultivo do milho e de outras sementes, nas terras baixas da Amazônia ocorriam as primeiras experiências do plantio de raízes - especialmente da mandioca - que se tornariam a base alimentar desses grupos.



Isso marcou o surgimento, por volta de cinco mil anos atrás, do que os pesquisadores chamam de Cultura de Floresta Tropical, caracterizada por grupos que praticavam uma agricultura ainda insipiente, complementada pela caça, pesca e coleta de frutos e sementes da floresta. A partir dessa nova organização social os grupos pré-históricos amazônicos passaram também a fabricar cerâmica e a ocupar certos locais por períodos mais prolongados. Com isso deixaram grandes sítios arqueológicos que testemunham seu florescimento por toda a Amazônia.



No Acre, as pesquisas realizadas pelo Instituto de Arqueologia Brasileira nas décadas de 70 a 90 revelaram a presença de duas grandes tradições ceramistas no estado. A primeira foi identificada nos vales dos rios Purus e Acre e denominada “Tradição Quinari”, enquanto que a segunda está situada nos vales dos rios Juruá, Tarauacá e Muru e recebeu o nome de “Tradição Acuriá”.



A presença de duas distintas tradições ceramistas nos dois maiores vales acreanos parece indicar que a diferenciação histórica e cultural da população dos vales do Juruá e Purus é mais antiga do que se pensava. Entretanto, nem todos os sítios arqueológicos já localizados no Acre estão classificados numa dessas duas tradições ceramistas, podendo ser identificadas ainda outras tradições pré-históricas na região.



É o caso, por exemplo, dos misteriosos círculos de terra que aguçam a curiosidade dos que sobrevoam a área onde são mais comuns. Os geoglifos, como vêm sendo ultimamente chamados, são grandes sítios com formas geométricas - círculos, quadrados, hexágonos e diversas outras composições - que variam entre 350 e 150 metros de diâmetro.



Aparecem principalmente em duas áreas: no divisor de águas entre os rios Acre e Xipamanu e no divisor de águas entre os rios Acre e Iquiri. Essa localização revela que os povos que construíram essas misteriosas figuras com terra local, tinham preferência pela ocupação da terra firme em vez de habitarem ao longo das margens dos principais rios da região.



Quanto à razão que levava esses grupos pré-históricos a construir as grandes estruturas de terra - que tanto poderiam servir para defesa, como para a agricultura, ou mesmo para a realização de festas e ritos - ainda não se pode afirmar nada. Porém, uma coisa é certa: não se tratam de sinais deixados por extraterrestres no solo acreano, na linha do “eram os deuses astronautas”. Já que a maioria desses sítios apresenta cerâmica arqueológica, o que indica que foram construídos, utilizados e talvez habitados por grupos indígenas pré-históricos.



Apesar de ainda não possuirmos dados resultantes da análise do material arqueológico desses sítios, as primeiras informações mostram que os geoglifos parecem guardar algumas relações com ocorrências arqueológicas do Llano de Mojos, região alagável e muito fértil ao norte da Bolívia, onde foram construídos grandes aterros para agricultura durante a pré-história. O que reforça os indícios de contatos prolongados entre as civilizações andinas e os povos da Amazônia ocidental desde muito antes do que se imagina. Mas só a realização de novas pesquisas arqueológicas será capaz de responder essas e outras questões sobre nosso mais distante passado.



Tempo das Malocas





Em linhas gerais a ocupação indígena dos altos rios Purus e Juruá correspondia a uma divisão territorial entre dois grandes grupos lingüísticos que apresentavam significativas diferenças. No Purus havia o predomínio, mas não a exclusividade, de grupos falantes das línguas Aruan e Aruak, do mesmo tronco lingüístico. Já no vale do Juruá havia o predomínio, também não exclusivo, de grupos falantes da língua Pano. Essa divisão territorial por vales entre grupos lingüísticos dominantes parece ter sido semelhante àquela que os arqueólogos detectaram através das tradições Quinari e Acuriá. Mas o registro histórico e lingüístico apontou que além dessa divisão aparentemente simples, havia também grupos falantes da língua Katuquina nos afluentes situados entre o médio Purus e o médio Juruá, ao norte do atual estado do Acre, já em terras do Amazonas. Além disso, havia outros povos de línguas Pano e Takana, ambas do mesmo tronco lingüístico Pano, que se encontravam mais ao sul, no alto curso do rio Acre, no Abunã, no Xipamanu e no Madre de Dios até sua confluência com o rio Madeira.



Para facilitar a compreensão desse quadro, levando em consideração não somente os limites do atual estado do Acre, mas também as áreas imediatamente vizinhas que integram a grande região indígena da Amazônia sul-ocidental, podemos dizer que esses povos indígenas estavam distribuídos em cinco grandes grupos:



1 - No médio curso do rio Purus, hoje estado do Amazonas, habitavam povos de lingua Aruan, do tronco Aruak. Grupos pouco aguerridos eram comumente submetidos por outros grupos mais fortes ou se refugiavam na terra firme, espalhando-se por diversos afluentes de ambas as margens do médio Purus. Entre os diferentes grupos dessa região estavam os Jamamadi, os Kamadeni e muitos outros já desaparecidos. Recentes análises de lingüistas atribuem a essa família uma antigüidade de cerca de 2.000 anos.



2 - No alto curso do rio Purus e no baixo rio Acre estavam estabelecidas diversas tribos do tronco lingüístico Aruak. Subindo esses rios, do norte para o sul, habitavam os Apurinã, os Manchineri, os Kulina, os Canamari, os Piros, os Ashaninka e outros. Na verdade, estes grupos se espalhavam desde a confluência do Pauini com o Purus até a região das encostas orientais dos Andes, desde aproximadamente 5.000 anos atrás. E chama a atenção como puderam se manter por tanto tempo no domínio de uma região tão vasta e tão rica ecologicamente. A pré-história registra que muito antes de resistir ao avanço dos homens brancos sobre suas terras, os Aruak ou Antis, como eram chamados pelos Incas, já haviam resistido com sucesso à chegada dos falantes da língua Pano e a expansão das civilizações andinas.



3 - No alto curso do rio Acre, alto Iquiri, Abunã e outros afluentes do rio Madeira já em território boliviano, havia um enclave de grupos falantes de lingua Takana e Pano. Alguns bastante aguerridos, como os temidos Pacaguara, outros mais sociáveis como os Kaxarari que mantinham ativo contato com os Apurinã, apesar das diferenças lingüísticas e culturais entre os dois grupos. Mesmo pertencendo ao tronco lingüístico Pano, a língua Takana é de origem mais recente, tendo surgido entre 3.000 e 2.000 anos atrás.



4 - Na região intermediária entre o médio curso do Purus e o Juruá, ao norte do Acre, habitavam os falantes da língua Katukina, sobre os quais se tem pouca informação. Algumas características destes grupos apontam para um surgimento relativamente recente, há cerca de 2.000 anos. Esses grupos pouco numerosos ficavam apertados entre os povos Aruak ao leste e os Pano a oeste, restando a eles a exploração das terras firmes, menos ricas em suprimento alimentar que as margens dos grandes rios.



5 - Boa parte do médio e alto curso do rio Juruá, bem como a maior parte de seus afluentes - como o Tarauacá, o Muru, o Envira, o Moa e daí por diante - era dominado por diversos e numerosos grupos de falantes da língua Pano. Eram Kaxinawá, Jaminawá, Amahuaca, Arara, Rununawá, Xixinawá e muitas outras denominações tribais. Todos fazendo parte de um tronco lingüistico muito antigo, com cerca de 5.000 anos, mas que teria se originado em outra região, invadindo só mais recentemente as terras acreanas. Com seu caráter guerreiro, os Pano conquistaram seu território através da guerra contra tribos de outras línguas, mas também contra grupos do mesmo tronco. Isso explica, em parte, a grande fragmentação que as muitas tribos Pano apresentavam quando finalmente os brancos começaram a chegar na região.



É claro que a simples divisão lingüística dos grupos nativos do Acre nos últimos cinco mil anos esconde a grande variedade de culturas indígenas e a complexa territorialidade estabelecida a partir das alianças e rivalidades tribais. Como entre os Apurinã e os Manchineri, nos rios Purus e Iaco, onde foi estabelecido um amplo território despovoado que servia para evitar contatos e conflitos, já que esses dois grupos Aruak viviam em guerra. Por outro lado, existem registros do estabelecimento de aldeias conjuntas de grupos Aruak e Pano, para resistir ao avanço das ordens religiosas pelo vale do Ucayali a partir do século XVII.



Mesmo com tantas histórias de conflitos, durante os milhares de anos em que as aldeias foram compostas por grandes malocas coletivas, o povo vivia do que lhes dava a floresta e se podia fazer grandes festas por ocasião da colheita estabelecendo um sutil equilíbrio econômico, ecológico e social na região. Ao se iniciar o século XIX, cada grupo familiar ou tribal possuía territórios claramente definidos e os relacionamentos entre esses grupos obedeciam não só às semelhanças étnicas e culturais, mas também às alianças que foram sendo estabelecidas ao longo do tempo.



Algumas informações indicam que havia extensas redes de comércio e comunicação cortando os diversos vales acreanos e por elas chegavam notícias e produtos de áreas longínquas. Chandless, em sua viagem ao rio Aquiri, noticiou que os Apurinã comumente recebiam dos Kaxarari pedras trazidas dos rios Abunã e Madeira para fabricar lâminas de machado, enquanto que os Manchineri já possuíam diversos objetos de metal, provavelmente resultado de comércio feito com peruanos. Outros relatos contam que era possível sair do rio Javari e, utilizando a vasta rede indígena de caminhos e varações, chegar ao vale do rio Madeira depois de uns poucos dias de viagem, em passo de indio é claro!



Por isso, desde os grupos indígenas mais fortes e numerosos que ocupavam as várzeas dos rios até os menores grupos familiares que perambulavam pelas cabeceiras, todos possuíam liberdade e com ela a possibilidade de ser feliz.



Tempo das correrias



Quando, a partir de 1860, começaram a acontecer as primeiras viagens de exploração se constatou, não só a presença indígena, mas a grande riqueza natural dos rios acreanos, despertando a cobiça dos exploradores. Já em 1870 tinha início uma verdadeira corrida do ouro que fez com que em poucos anos os rios acreanos fossem tomados de assalto. Milhares de homens vindos de todas as partes do Brasil e do mundo passaram a subir os rios estabelecendo imensos seringais em suas margens. Era a febre provocada pelo ouro negro, a borracha extraída da seringueira que depois de defumada era exportada para abastecer as indústrias européias e norte-americanas, cada vez mais ávidas por esse produto.



Em 1878 a empresa seringalista alcançava a boca do rio Acre subjugando todo o médio Purus e já em 1880 ultrapassava a linha Cunha Gomes, limite terminal das fronteiras legais brasileiras. Ao mesmo tempo os caucheiros peruanos vindos do sudoeste cortavam a região das cabeceiras do Juruá e do Purus, enquanto que os primeiros seringalistas bolivianos começavam a se expandir pelo vale do Madre de Dios e invadiam as terras acreanas pelo sul. Em poucos anos, os povos nativos da região se viram cercados por brasileiros, peruanos e bolivianos, sem ter para onde fugir ou como resistir a enorme pressão que vinha do capitalismo internacional que dependia da borracha amazônica.



De senhores desta terra os povos nativos da Amazônia sul-ocidental passaram a ser vistos como obstáculos a exploração da borracha e do caucho na região. Foi quando surgiu a prática das correrias: expedições armadas feitas com o objetivo de matar as lideranças das aldeias, aprisionar homens para o trabalho escravo e obter mulheres que seriam vendidas aos seringueiros. Foi um tempo de terror. São muitos os relatos de correrias quando, depois de queimadas as malocas e mortos os principais guerreiros, os vencedores se divertiam jogando as crianças para cima e aparando-as com a ponta do punhal numa demonstração cruel de habilidade no manejo das armas.



Como se isso não bastasse, junto com os brancos chegaram também muitas doenças contra as quais os índios não possuíam resistência. O sarampo, a gripe, a tuberculose e outras doenças rapidamente se alastraram entre os grupos indígenas da região dizimando aldeias inteiras diante dos pajés que não sabiam como curar aquelas moléstias desconhecidas.



Ainda assim a reação dos diferentes grupos indígenas acreanos a chegada dos não-índios foi tão variada como eram diversificadas as culturas aqui presentes. Uma boa parte das tribos de lingua Aruan e Aruak, como os Jamamadi, Apurinã, Manchineri e Ashaninka decidiram colaborar em certa medida com os brancos. Muitos índios tornaram-se remadores, guias, mateiros, seringueiros. Algumas aldeias passaram a se relacionar com seringais negociando os produtos da caça ou de sua lavoura em troca de ferramentas, armas e objetos dos brancos.



Por outro lado, os grupos de lingua Pano, em linhas gerais, resistiram à invasão de seus territórios ancestrais, evitando contatos ou relações de qualquer espécie com os brancos. O resultado imediato foi a perseguição e o extermínio de todos os grupos que dificultavam a abertura dos seringais ou a extração do caucho. A perseguição promovida contra os índios foi intensa e certos grupos começaram a esconder sua identidade, como um pequeno grupo de Jaminawá que passou a se dizer Katukina para evitar a perseguição.



Essa dura realidade de confrontos perdurou pelos primeiros trinta anos da ocupação não-índia da região. Entre 1880 e 1910 o ritmo da exploração da região só aumentou levando ao extermínio de inúmeros grupos indígenas. Como os Canamari que desapareceram da grande floresta, ou os Takana que migraram para o sul até a Bolívia para nunca mais retornar ao território acreano, ou ainda os Apurinã que tiveram seus vastos domínios reduzidos a ponto de não possuírem hoje nenhuma terra indígena demarcada no estado do Acre, parte de seu território ancestral.



Tempo do cativeiro



As conseqüências da febre do ouro negro foram terríveis para os grupos indígenas da Amazônia. Nem o fim do primeiro ciclo da borracha, em 1913, diminuiu a pressão sofrida por esses grupos já tão enfraquecidos. Diante dessa nova realidade, com grandes e poderosos seringais espalhados por todos os principais rios, nunca mais seria possível retomar as antigas formas de organização social. Alguns pequenos grupos ainda conseguiram se refugiar nas cabeceiras mais isoladas, mas a grande maioria dos índios do Acre foi obrigada a se modificar para não desaparecer. Passaram a adotar então o modelo de casa cabocla que o branco utilizava, começaram a depender das ferramentas dos brancos, foram perdendo suas línguas maternas e aprendendo o português ou o espanhol.



Começava assim uma etapa da história dos povos nativos do Acre que se estendeu por um longo período, entre 1910 e 1980. A acentuada queda nos preços internacionais da borracha fez com que ficasse cada vez mais difícil trazer nordestinos para o corte da seringa. O gradativo esvaziamento dos seringais da região levou a necessidade cada vez maior do aproveitamento dos índios como mão de obra. Muitos foram os patrões que reuniram grupos dispersos de diversas etnias para trabalharem em seus seringais. Alguns desses patrões chegaram a ser reconhecidos como amigos dos índios, como Ângelo Ferreira, famoso amansador de índios, que reuniu muitos Kaxinawá, Jaminawá e Kulina, entre outros para trabalhar sob suas ordens. Mas a maioria dos patrões tratava os índios ainda pior do que os seringueiros. Afinal de contas, como não sabiam ler e pouco entendiam da língua dos brancos, os índios eram enganados no peso da borracha, no preço da mercadoria, na desvalorização de seus produtos, no pagamento da renda anual da estrada de seringa. Com isso os índios acumulavam enormes dívidas com os barracões dos seringais e acabavam se tornavam prisioneiros de seus patrões.



Quanto aos pequenos grupos indígenas que conseguiram se refugir no centro da mata ou nas cabeceiras, os índios “brabos” como ainda são tratados, foram caçados sistematicamente para serem “amansados” e assim poderem ser incorporados à nossa sociedade. Ainda assim, alguns destes grupos conseguiram escapar ao domínio dos não-índios e resistiram ao cerco cada vez mais apertado da nossa civilização, perambulando sempre, sem parar nunca, varando pela região das cabeceiras onde os rios e os brancos não chegam.



Tempo dos direitos



Durante sete décadas de cativeiro os povos nativos do Acre sofreram uma enorme degradação de suas culturas tradicionais. O peso dos preconceitos da sociedade não-índia, a expropriação de suas terras ancestrais, a falta de políticas de assistência, de educação ou de saúde, levou-os a uma grave condição econômica e social.



Essa situação só começou a mudar a partir de 1976 com a instalação da primeira Ajudância da Funai do Acre e sul do Amazonas. Começava assim uma longa luta pela demarcação das terras ancestrais dos povos nativos do Acre.



Boa parte dessa luta foi empreendida por diversas entidades indígenistas não-governamentais, como a CPI, o COMIN e o CIMI, mas principalmente pelas próprias lideranças indígenas que ao mesmo tempo em que adquiriam consciência de seus direitos passaram a buscar a organização de um movimento indígena politicamente articulado. Surgiram, então, em diversas aldeias as primeiras cooperativas que proporcionaram condições objetivas para que as comunidades se libertassem do domínio dos patrões.



Não se deve imaginar que esse processo se deu sem conflitos. Pelo contrário, os patrões que se achavam com direitos sobre as terras e gentes não estavam dispostos a abrir mão de nada disso. Para complicar ainda mais a situação, o processo de venda dos seringais acreanos para os “paulistas”, que havia sido iniciado no governo Dantas, trouxe para a região grandes empresas com interesses e projetos agropecuários que provocaram a expulsão dos seringueiros de suas terras. Isso resultou em muitas emboscadas, histórias de pistoleiros e jagunços, mortes anunciadas ou não. Mas foi graças ao acirramento dos graves conflitos sociais que se alastraram por toda a região que surgiu a Aliança dos Povos da Floresta - formada por índios, seringueiros e ribeirinhos - que mesmo às custas do sangue de muitos conseguiu barrar o avanço da exploração predatória das florestas acreanas.



Tempo Presente



Felizmente a história da Amazônia Ocidental pode registrar que essa luta, que hoje não é só dos povos nativos mas de boa parte da sociedade acreana, vem obtendo resultados positivos. Atualmente são vinte e oito terras indígenas já demarcadas e asseguradas para os povos nativos da região, mas ainda falta conseguir a regularização de outras quinze terras indígenas. É preciso ter pressa para obter as mínimas condições de sobrevivência para nossas populações ancestrais e a terra é uma dessas condições essenciais.



Grandes conquistas já foram obtidas. Hoje existe uma educação diferenciada para os povos indígenas que é fruto de um longo e maduro trabalho de muitos indígenas e indigenistas. Hoje existem diversos agentes de saúde indígenas que dão assistência permanente às suas comunidades. Hoje já começam a se colher os primeiros frutos do trabalho dos agentes agro-florestais indígenas que estão incorporando a parte boa da tecnologia a favor de seus parentes. Mas ainda há muito a se conquistar pois o tempo dos direitos esta só começando.



Não deixa de ser muito importante o fato de que no mesmo ano em que a sociedade não-índia comemora o centenário da Revolução Acreana e da criação de um lugar no mundo chamado Acre, aconteça também o III Encontro de Culturas Indígenas do Acre e Sul do Amazonas, quando todas as etnias dessa milenar região invadem a cidade de Rio Branco para cantar, dançar e anunciar seu direito à vida e à felicidade, tão indios quanto aqueles isolados que ainda perambulam pelas intocadas florestas das cabeceiras.
A imigração de sírios e libaneses para o Brasil assumiu desde o início certos padrões que foram reproduzidos e mantidos nas colônias formadas nas mais diferentes regiões do país. Por isso diversas cidades brasileiras - como São Paulo, Rio de Janeiro, Belém e Manaus - receberam imigrantes que se portavam de forma muito semelhante, seja no que diz respeito ao comportamento individual, seja em relação à vida em comunidade, apesar das distâncias e do isolamento a que muitos ficaram sujeitos. O Acre não foi exceção.



A seguir veremos algumas dessas características gerais assumidas pela imigração árabe que formam o pano de fundo da longa história oriental em terras acreanas.



A migração de origem síria e libanesa foi realizada por conta dos próprios imigrantes, de maneira não oficial ou subsidiada, o que sempre foi motivo de orgulho, como prova do espírito altivo e brioso desse povo.



Eles vinham para “Fazer a América” e qualquer lugar servia para ganhar dinheiro. Uma vez que o período de maior afluência da imigração proveniente do Oriente Médio coincidiu com o auge do ciclo da borracha, entre 1870 e 1913, a Amazônia se tornou um dos principais objetivos daqueles indivíduos interessados na fortuna rápida. A maioria acreditava que apenas alguns anos de trabalho e remessas do dinheiro ganho na América seriam necessários para atingir certa estabilidade financeira, possibilitando a volta rápida para casa. Efetivamente, um terço dos que imigraram retornaram aos seus países de origem, mas a grande maioria permaneceu constituindo família em diversas partes do continente americano.



Aliás, a família, ao lado da religião, é o pilar da identidade de sírios e libaneses. Muitos imigrantes mandavam buscar esposas, ou voltavam às suas aldeias no Oriente para se casar e em seguida retornar para os locais onde tinham seus negócios. Some-se a isto ainda que a decisão pela migração era tomada em família, sendo geralmente orientada por seu chefe, bem de acordo com o espirito patriarcal tão marcante no Oriente.



“Vendo gente, se não estiver pelado, é freguês”



Logo, os primeiros sírio-libaneses desembarcados no Brasil perceberam que as maiores oportunidades estavam no pequeno comércio itinerante. Esta atividade não necessitava de grandes capitais para ser iniciada e servia ao objetivo de manter uma relativa liberdade. Dessa forma os pioneiros sírio-libaneses começaram a disputar espaço com os mascates italianos e portugueses que se espalhavam por todo o país.



Começou, assim, a tradição brasileira de comerciantes sírio-libaneses, também conhecidos como mascates turcos. Na Amazônia estes mascates eram chamados de regatões (porque praticavam comércio navegando pelos rios) e se estabeleciam em qualquer parte onde encontrassem boas oportunidades de negócios. Subiam os rios, os paranás e os igarapés, negociando suas mercadorias em troca de borracha, castanha, couro de caça, ou qualquer outro produto com valor comercial. Alcançaram assim todos os vales acreanos, como pontas de lança do processo que formou uma nova civilização no extremo oeste do “inferno verde”.



“Todo o libanês é brimo, até a brimeira falência”



Foi nas cidades que a imigração árabe se tornou mais visível. Semelhante ao que ocorreu em São Paulo e outras regiões do país, os sírios e libaneses que se estabeleceram nas diversas cidades acreanas abriram pontos comerciais para a venda de armarinhos, tecidos e aviamentos em geral. Como essas lojas normalmente se concentravam numa área específica da cidade, ruas inteiras passaram a ser dominadas pelos árabes.



Muitos desses comerciantes logo se tornaram não só varejistas mas também atacadistas e fornecedores de outros imigrantes que, recém chegados à região, necessitavam de apoio para se estabelecer. Apesar de existirem disputas entre os árabes imigrados, em razão de diferenças religiosas e étnicas, a cooperação que existia entre os integrantes da colônia era mais forte.



“O imigrante ao chegar, pobre, era tratado por Turco. Ao se tornar regatão era Sírio e ao enriquecer como dono de comércio era Libanês.”



De uma forma geral os regatões eram mal vistos pela elite da sociedade extrativista e sofriam com a marginalização e os preconceitos a que estavam sujeitos.



Isso se dava porque os regatões eram atravessadores aos quais os seringueiros recorriam para comercializar sua produção, seja para conseguir melhor preço do que o oferecido pelos patrões, seja para escapar do endividamento crescente com o barracão, seja por conta da revolta contra os maus tatos infligidos por seringalistas violentos. Por isso a ordem nos seringais acreanos era de não deixar encostar regatões.



Porém, os regatões não tinham como seu objetivo central, ameaçar a autoridade dos seringalistas. Pelo contrário, eles queriam a ascensão social proporcionada pelo enriquecimento. O regatão passava um período regateando pelas beiradas de rios, apenas o suficiente para acumular capital. Logo os “turcos” estavam abrindo uma porta de comercio em qualquer dos núcleos urbanos acreanos em formação. Começava ai sua batalha para tornar-se aceito na comunidade e ser visto, não mais como marginal, mas como parte integrante do sistema.



Com o tempo e a prosperidade proporcionada pelo comércio do “ouro negro” (como era tratada a borracha no início do século) os árabes do Acre começaram a participar da maçonaria, dos clubes políticos, da fundação de clubes esportivos e diversas outras atividades que lhes rendiam dividendos sociais.



Quando a Segunda Guerra Mundial teve início e deu origem, em 1942, ao novo ciclo de crescimento econômico, conhecido como a “Batalha da Borracha”, os imigrantes sírio-libaneses já estabelecidos puderam se beneficiar ao máximo.Com capital e proprietária de grande quantidade de empreendimentos a colônia árabe assumiu a condição de integrante da elite dirigente da sociedade acreana.



Foi o período em que a participação política dos árabes e seus descendentes aumentou consideravelmente. Logo alguns dos representantes da colônia alcançavam posições políticas destacadas. Entre os diversos deputados de ascendência árabe, a história acreana registrou também a presença de senadores e governadores do estado do Acre.



Os imigrantes sírio-libaneses e seus descendentes obtiveram completo sucesso ao vencer a opinião corrente que um dia os considerou marginais. Neste aspecto pesava também o fato de que, com o passar do tempo, houve uma gradativa mistura com a população local, proporcionando uma descendência de legítimos “filhos da terra”. Como acreanos natos os filhos da colônia árabe estavam em igualdade de condições com os filhos de outros imigrantes nacionais ou estrangeiros. Porém, o bem estar econômico alcançado por muitos sírio-libaneses proporcionou uma educação de boa qualidade para seus filhos. Estes eram mandados estudar fora, nos grandes centros do país, para depois voltar formados e preparados para se tornar parte da sociedade que abraçaram como sua e da qual não poderiam ser dissociados nunca mais.

Como sírio-libaneses, ficaram conhecidos os milhares de homens e mulheres provenientes de diferentes países do Oriente Médio que migraram para as Américas a partir do ultimo quartel do século passado. Estes homens eram portadores de identidades culturais extremamente ricas e trouxeram para o Brasil e para a Amazônia muitas das marcas milenares que herdaram de seus antepassados. Para entendermos o que foi a saga árabe em terras amazônicas precisamos primeiro conhecer um pouco da história do Oriente Médio, uma das regiões mais conturbadas do planeta.



O Oriente médio está situado na confluência dos três continentes de ocupação humana mais antiga e intensa do mundo. Através da região do Oriente Próximo, como era conhecida na antiguidade, ligam-se África, Ásia e Europa. Isso fez com que essa área fosse intensamente habitada e percorrida desde a pré-história até os dias de hoje, além de ser estratégica para quaisquer povos que quisessem expandir suas influências ou sua dominação.



Na antiguidade o atual Líbano correspondia à Fenícia, uma das mais florescentes e importantes civilizações que a história da humanidade já conheceu. Em razão da situação geográfica das terras libanesas, composta por uma estreita faixa de terra apertada entre o mar e as montanhas, os fenícios se viram obrigados a desenvolver o comércio em lugar da agricultura. Tornaram-se assim, exímios navegadores do Mediterrâneo e estabeleceram diversas feitorias, através das quais chegaram a dominar boa parte da costa da África e da Europa Mediterrânea. Começava assim uma milenar tradição comercial que certamente foi uma das referências mais importantes para o desenvolvimento de um novo modo de vida na Amazônia, onde os regatões se assemelhavam à fenícios modernos navegando e comercializando pelo amplo rio-mar e seus afluentes.



Além disso, no Oriente próximo, durante a antiguidade, desenvolveram-se diversas outras civilizações que maravilhavam o mundo através de suas realizações arquitetônicas, conquistas militares, inovações técnicas, tradições religiosas e organizações sociais. Mesopotâmia, Babilônia, Assíria, Israel, Pérsia - entre outros povos guerreiros, agricultores ou pastores - que sucessivamente dominaram os vastos desertos da península arábica e os vales férteis do Tigre e do Eufrates.



Séculos depois foi a vez do Ocidente levar novas formas de organização e dominação, através da grande expansão do Império Romano, até a Península Arábica. No século V da nossa era a consolidação do Império Romano do Oriente provocou a cristianização de diversas comunidades daquela região. Foi a graças a presença da famosa Civilização Bizantina, que boa parte da população do Líbano atual e parte da Síria passaram a professar doutrinas cristãs, algumas ortodoxas. Essa característica facilitou bastante a adaptação no Brasil daqueles que possuíam orientação cristã e saíram do Oriente para fazer a América contemporaneamente.



Ao mesmo tempo outro movimento religioso desenvolvia-se na Arábia, entre os séculos VI e XV. Foi a religião fundada pelo profeta Maomé que, a partir de uma série de revelações divinas, escreveu um livro sagrado chamado Corão ou Alcorão.



Os termos “islâmico”, “muçulmano” ou “maometano” têm o mesmo significado, isto é, “pessoa que está sujeita aos desígnios de Deus ou Alá”, revelando todo o fundamentalismo inerente a essa corrente religiosa. Ao se expandir, o islamismo foi se dividindo em várias seitas. A principal separação estabeleceu-se entre os Xiitas, defensores intransigentes da fé e os Sunitas que eram mais maleáveis em relação as transformações do mundo.



Já no século XI chegou à região outra corrente humana. O Império Turco Otomano conquistou o domínio político do Oriente Médio até o início do séc. XX. O grande chefe Otoman, daí o nome Otomano, deu início ao processo expansionista que resultou na formação de um grande império com orientação muçulmana. Foi durante esse período que a Síria e a Palestina, sob dominação Turca, sofreram uma forte opressão do governo muçulmano sobre uma população de maioria cristã. E foi justamente a perseguição religiosa um dos principais motivos que levaram muitas famílias cristãs libanesas e sírias a abandonar o Oriente e migrar para outras regiões.



A decadência do poderoso Império Turco Otomano chegou ao seu ponto máximo durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Aliado da Alemanha que foi derrotada na guerra, o Império Otomano foi reduzido territorialmente a atual Turquia somente. As demais áreas do oriente foram partilhadas entre as vencedoras da guerra. Enquanto a Grã-Bretanha ficou com uma grande área da Palestina - atuais Israel, Jordânia e Iraque – a França ficou com o domínio da região que atualmente forma o Líbano e a Síria.



Apesar dessa nova situação a imigração foi mantida por conta da crise econômica que continuava forte na região. Além do que, o sucesso dos primeiros imigrantes que conseguiram constituir fortunas nas Américas continuou atraindo os familiares daqueles afortunados e outros indivíduos sem grandes perspectivas em seu país de origem. O regime de protetorado francês na Síria e no Líbano perdurou até o início da Segunda Grande Guerra (1945) quando estes países alcançaram sua independência política.



O certo é que uma boa parte dessa rica cultura milenar foi transportada na bagagem dos que abandonaram os desertos orientais feitos de ventos e areias para se internar nos desertos verdes de águas e sombras da Amazônia Ocidental.



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Os motivos da partida



A maioria dos sírio-libaneses que chegaram à América, vieram em razão da precária situação econômica e da inferioridade sócio religiosa a que estavam sujeitos em seus países de origem. Outras razões de ordem econômica-demográfica somados a fatores de natureza política motivaram e consolidaram esse fenômeno.



A migração foi a única saída encontrada por muitos para escapar aos conflitos étnicos e religiosos iniciados no período da dominação turca e acirrados durante o regime de protetorado francês, após a I Guerra Mundial. É preciso compreender que no Oriente Médio a religião é um elemento fundamental da identidade social. Entre esses povos a religião assume o papel que na sociedade ocidental é exercido pelo Estado. Portanto, está presente nos mais variados aspectos sociais, políticos ou individuais, ultrapassando sua natureza espiritual. Massacres de cristãos, como o de 1861 no Líbano, marcaram uma época quando estes não podiam sequer caminhar nas calçadas sem correr risco de vida.



Outros fatores também concorreram para acelerar o processo de migração. A expansão da rede de transportes que uniu áreas mais distantes, trouxe diversos bens manufaturados para as aldeias do interior, desarticulou o caráter familiar da produção de artesãos e camponeses e os levou a uma produção voltada para a simples subsistência. Somando, ainda, o fato de que o crescimento populacional nas aldeias havia chegado ao seu limite máximo, com uma grande escassez de terras aráveis com água suficiente para o plantio, tornava a situação da maioria da população bastante precária.



Com a ocorrência da Primeira Guerra Mundial, a situação piorou ainda mais. As populações das regiões montanhosas do Líbano passaram por um momento de intensa penúria e fome. A produção de alimentos era insuficiente para aplacar a fome do povo e ainda assim era confiscada pelo Governo Turco que arrecadava provisões para o exército em guerra. Além de se ter estendido o serviço militar obrigatório aos cristãos. Levando a um movimento migratório mais intenso e de caráter mais permanente.

Seu nome: Wilson Pinheiro. Um homem alto, determinado, de fala mansa e rara, mas de olhar poderoso.



Por um mês procuramos, em vão, sinais de sua voz. Nada.



Nenhum papel de pão manuscrito, nenhum documento do Sindicato, nenhuma entrevista nos jornais, nenhuma frase solta e memorizada pela multidão que instintivamente seguia os passos daquele homem de uma coragem evidente.



Foi pelas vozes alheias que começamos a conhecer a história do Wilson. Sobram relatos do dia 21 de julho de 1980, quando três balas desferidas pelas costas puseram fim a sua vida. O primeiro dos líderes da floresta a morrer sem razão, por uma causa. Mas não o ultimo a pagar com sua vida para que outros pudessem continuar vivendo de acordo com suas tradições ancestrais. Foram esses relatos da morte, da comoção popular, do enterro, da indignação, da dor e das juras de vingança, publicadas nos jornais acreanos e repetidas nas entrevistas feitas com as pessoas que participaram dessa história, que nos fizeram começar a ouvir o som da voz daquele homem calado.



Não pudemos evitar um calafrio na espinha ao conhecer a história do homem enterrado de bruços pela multidão, com uma moeda na boca para evitar a fuga de seus assassinos. Os signos populares são poderosos. A sina de um homem pode ser sintetizada em um único gesto.



Não pudemos, tão pouco, evitar um enjôo desagradável ao ler matérias do jornal oficial que diziam que a culpa da malfadada “Tensão social” vivida pela população acreana naqueles anos terríveis era dos agitadores, dos subversivos, dos comunistas que só queriam conflagrar a multidão para destruir a ordem vigente.



Se bem entendemos essa história, era o povo que estava tentando manter a ordem das coisas de um Acre invadido por pessoas inescrupulosas, que pouco sabiam da gente que vivia do que a floresta tinha pra oferecer, que só se interessavam por tirar o máximo possível no menor tempo possivel. Quem subvertera a ordem natural das coisas havia sido o então chamado “Capitalismo Selvagem”, o Governo Militar, o Governo Biônico Estadual; para os quais só contavam índices econômicos favoráveis e um povo manso que obedecesse prontamente o que lhe era determinado. Era preciso progredir, alcançar e desenvolver as fronteiras de um país subdesenvolvido (outra palavra da moda na época). Afinal de contas “Esse é um país que vai pra frente”. “Brasil, o país do futuro”. E o que é o progresso ? Estradas asfaltadas, bois no pasto, horizontes sem homens monotonamente preenchidos por soja para exportação. Não importa o preço a ser pago. No máximo, uma ou duas gerações de brasileiros cerceados, sem liberdade de ir e vir, falar, pensar, plantar, sonhar, buscar a felicidade, enfim. Milhões de brasileiros entre 30 e 40, anos que sabem bem o preço que foi pago por tamanha estupidez oficial encastelada nas estruturas de poder desse país.



Naquela época eram eles que falavam, o Wilson calava, mas agia. Usava sua enorme força vital para conduzir o povo em uma marcha pacífica pelo “empate” do progresso. Todos sabiam que não se podia vence-los. Eles possuíam a polícia, as forças armadas, o capital, a justiça, tudo de seu lado. E o povo o que tinha ? Somente sua determinação e coragem frente à força bruta. Mas, se não se podia vencer os opressores podia-se pelo menos “empatar” com eles. E lá iam eles, mulheres e crianças à frente, impedir mais uma derrubada. Centenas de Wilsons, anônimos, calados, transformando suas ações em uma voz que gritava.



Da culminância da dor, a vingança. Morte trocada. Para um Wilson morto, uma outra morte, um Nilão, culpado ou não, um deles. Era o mínimo que podiam fazer se quisessem sobreviver. Aceitar de braços cruzados a morte de Wilson significaria a derrota e a condenação à morte de muitos outros homens de um povo submetido ao terror instituído. Existe razão possível na guerra ?



As versões estão lá, para todos verem. Quem perder algum tempo lendo as matérias publicadas no “Varadouro”, no “Nós Irmãos”, na “Gazeta do Acre”, no “O Rio Branco” e no “O Jornal” vão poder constatar pessoalmente a mobilização popular que se espalhava por todos os vales do Acre - de Boca do Acre até Brasiléia, de Sena Madureira até Cruzeiro - contra a invasão predatória e ofensiva dos “paulistas”. Quem se detiver em ler as páginas que apenas começam a amarelar daqueles jornais ficará sabendo do descaso oficial com a captura dos assassinos de Wilson e depois a fúria com que os assassinos de Nilão foram perseguidos, presos e torturados. “Operação Pega Fazendeiro”, “Balas de Aço”, “Os sete dias de Brasiléia”. Uma sequencia de manchetes que nunca precisariam ter sido publicadas, se nossos governantes fossem homens sensatos e esse um país justo.



Anos se passaram desde então. A luta continuou e as manchetes dos jornais seguiram estampando notícias de crimes de encomenda, de conflitos eminentes, de empates vitoriosos e de ações públicas insuficientes. Outros homens tombaram antes que a floresta acreana e o modo de se viver com ela pudessem ser salvos. Poucos culpados foram presos por seus crimes. Mas o povo venceu. No que era possível, mas venceu. Reservas extrativistas foram demarcadas, o povo da floresta fez uma aliança que mostrou a todos a existência de um povo que só queria tranquilidade e justiça pra tocar sua vida. A voz de Wilson e de seu povo foi forte o suficiente para se fazer ouvir.



O Acre nunca mais seria o mesmo então. Os governantes até continuariam os mesmos, nas mesmas famílias que à décadas. Mas havia algo novo na paz que aos poucos voltava às cidades acreanas. O povo das cidades também havia assistido à chegada de milhares de famílias expulsas de suas casas, presenciado a miséria que explodia em suas invasões periféricas e ouvido as vozes que se levantaram de dentro da floresta. Os educados filhos da cidade, viram que tudo o que acontecera em Xapuri, Brasiléia, Boca do Acre, Quinari, Tarauacá, era questão de resistência de um povo. Era preciso reconhecer que nada daquilo havia sido coisa de comunista, de subversivo, de políticos cassados, de ambientalistas pós-modernos, de ativistas burgueses, de intelectuais urbanos.



Mais uma vez a voz que vinha do interior foi expressa por veículos estranhos ao povo que falava. Foi a vez das monografias acadêmicas, das dissertações de mestrado, das teses de doutorado. O que era coragem e sabedoria popular foi logo promovido à ciência, multiplicando os títulos, as abordagens, os recortes epistemológicos, as linhas teórico-metodológicas de pesquisa, economia, história, sociologia, antropologia, expressões e palavras estranhas ao povo que de sujeito se tornou objeto (de pesquisa).



Diferente daquelas manchetes de jornais que não deveriam ter sido escritas, alguns dos novos títulos revelaram o aprendizado de uma sociedade civilizada com o que havia de mais antigo e inovador em sí mesma, a voz do povo. “Ocupação recente das terras do Acre (Transferencia de capitais e disputa pela terra)” (1982); O sertanejo, o Brabo e o Posseiro (Os cem anos de andanças da população acreana)” (1985); “Conflitos pela terra no Acre” (1987); “Os ‘Imperadores do Acre’ – uma análise da recente expansão capitalista na Amazônia” (1988); “Modernização da agricultura – pecuarização e mudanças – o caso do Alto Purus” (1991); “Seringueiros e Sindicato: Um povo da floresta em busca de liberdade” (1991); “Capital e trabalho na Amazônia Ocidental” (1992); entre tantos outros publicados nos corredores das UNBs, UFACs, UFMGs, PUCs.



Isso sem falar nas prateleiras das livrarias dos shopping-centers repletos de livros sobre a devastação da Amazônia, sobre a vida e a morte de Chico Mendes, sobre ecologia, etc. Será possível que essa sociedade de consumo rápido e desenfreado tenha realmente ouvido aquela voz que silenciou na boca de um Wilson Pioneiro ? Talvez nunca saibamos ao certo.



O que parece certo é que o Acre continua no seu caminho, Tentando construir um destino próprio. Não importa se diferente das receitas caseiras ou internacionais. Aqui existe uma voz que nunca foi escrita, da qual não se registrou o timbre, da qual não restou nenhuma frase, mas que não deixa de ser repetida e ouvida por seringais e cidades dessa Amazônia Ocidental. Uma certa voz, de um certo homem alto e determinado, de fala mansa e rara, dono de um olhar e um silêncio poderosos.



PS: Este deveria ser um artigo de história, na mais pura acepção pragmática da ciência. Porém, como não sentir e escrever com o coração sobre uma tal história de dor e vida ?


Os insuspeitos perigos da guerra



A segunda grande guerra mundial, em fins de 1941, estava tomando rumos muito perigosos. Além de não conseguir conter a ofensiva alemã, os paises aliados viam o esforço de guerra consumir rapidamente seus estoques de matérias primas estratégicas. E nenhuma situação era mais preocupante do que a da borracha, cujas reservas estavam tão baixas que o governo americano se viu obrigado a tomar uma série de duras medidas internas. Toda a borracha disponível deveria ser utilizada somente pela maquina de guerra.



A entrada do Japão no conflito, a partir do ataque de Pearl Harbour, impôs o bloqueio definitivo dos produtores de borracha. Já no principio de 1942 o Japão controlava mais de 97% das regiões produtoras asiáticas, tornando critica a disponibilidade da borracha para a indústria bélica dos aliados.



Por estranho que possa parecer foi essa seqüência de acontecimentos, ocorridos em sua maioria no hemisfério norte ou do outro lado do Oceano Pacífico, que deu origem no Brasil à quase desconhecida Batalha da Borracha. Uma história de imensos sacrifícios para milhares de brasileiros mandados para os seringais amazônicos em nome da grande guerra que conflagrava o mundo civilizado. Um capítulo obscuro e sem glórias de nossa história que só permanece vivo na memória e no abandono dos últimos soldados da borracha.



Os Acordos de Washington



Quando a extensão da guerra ao Pacífico e ao Indico, interrompeu o fornecimento da borracha asiática as autoridades norte-americanas entraram em pânico. O Presidente Roosevelt nomeou uma comissão para estudar a situação dos estoques de matérias-primas essenciais para a guerra. E os resultados obtidos por essa comissão foram alarmantes: “De todos os materiais críticos e estratégicos, a borracha é aquele que apresenta a maior ameaça à segurança de nossa nação e ao êxito da causa aliada (...) Consideramos a situação presente tão perigosa que, se não se tomarem medidas corretivas imediatas, este país entrará em colapso civil e militar. A crueza dos fatos é advertência que não pode ser ignorada” (Comissão Baruch).



As atenções do governo americano se voltaram então para a Amazônia, grande reservatório natural de borracha, com cerca de 300.000.000 de seringueiras prontas para a produção de 800.000 toneladas de borracha anuais, mais que o dobro das necessidades americanas. Entretanto, nessa época, só havia na região cerca de 35.000 seringueiros em atividade com uma produção de 16.000-17.000 toneladas na safra de 1940-41. Seriam necessários, pelo menos, mais 100.000 trabalhadores para reativar a produção amazônica e eleva-la ao nível de 70.000 toneladas anuais no menor espaço de tempo possível.



Para alcançar esse objetivo ocorreram intensas negociações entre autoridades brasileiras e norte-americanas que culminaram com a assinatura dos Acordos de Washinton. Ficou acertado então que o governo americano passaria a investir fortemente no financiamento da produção de borracha amazônica, enquanto ao governo brasileiro caberia o encaminhamento de milhares de trabalhadores para os seringais, no que passou a ser tratado como um heróico esforço de guerra. Tudo ótimo enquanto as coisas estavam no papel, mas muito complicadas quando chegou a hora de pô-las em prática.



A Batalha da Borracha



Para o governo brasileiro era juntar a fome com a vontade de comer, literalmente. Somente em Fortaleza cerca de 30.000 flagelados da seca de 41-42 estavam disponíveis para serem enviados imediatamente para os seringais. Mesmo que de forma pouco organizada o DNI (Departamento Nacional de Imigração) ainda conseguiu enviar para a Amazônia, durante o ano de 1942, quase 15.000 pessoas, sendo a metade de homens aptos ao trabalho.



Eram os primeiros soldados da borracha. Simples retirantes que se amontoavam com suas famílias por todo o nordeste fugindo de uma seca que teimava em não se acabar. O que era, evidentemente, muito pouco diante das pretensões norte-americanas.



O problema era a baixa capacidade de transporte das empresas de navegação dos rios amazônicos e a pouca disponibilidade de alojamento para os trabalhadores em transito. Mesmo com o fornecimento de passagens do Loyd, com a abertura de créditos especiais pelo governo brasileiro e com a promessa do governo americano de pagar U$ 100 por cada novo trabalhador instalado no seringal as dificuldades eram imensas e pareciam intransponíveis. Isso só começou a ser solucionado em 1943 através do investimento maciço que os americanos fizeram na SNAPP (Serviço de Navegação e Administração dos Portos do Pará) e da construção de alojamentos espalhados ao longo do trajeto a ser percorrido pelos soldados da borracha.



Para acelerar ainda mais a transferência de trabalhadores para a Amazônia e aumentar significativamente sua produção de borracha os governos norte-americano e brasileiro encarregaram diversos órgãos da realização da “Batalha da Borracha”. Pelo lado americano estavam envolvidas a RDC (Rubber Development Corporation), a Board of Economic Warfare, a RRC (Rubber Reserve Company), a Reconstruccion Finance Corporation e a Defense Supllies Corporation. Enquanto que pelo lado brasileiro foram criados o SEMTA (Serviço Especial de Mobilização de Trabalhadores para a Amazônia), depois substituída pela CAETA (Comissão Administrativa de Encaminhamento de Trabalhadores para a Amazônia), a SAVA (Superintendência do Abastecimento do Vale Amazônico) e o BCB (Banco de Crédito da Borracha), entre outros.



Esses novos órgãos, em muitos casos, se sobrepunham a outros já existentes como o DNI e não precisamos de muito esforço para imaginar o tamanho da confusão oficial que se tornou essa tal Batalha da Borracha.



A ilusão do paraíso



Em todas as regiões do Brasil aliciadores tratavam de convencer trabalhadores a se alistar como soldados da borracha para auxiliar na vitória aliada. Alistamento, recrutamento, voluntários, soldados, esforço de guerra, se tornaram termos comuns no cotidiano popular. A mobilização de trabalhadores para a Amazônia realizada pelo Estado Novo foi revestida por toda a força simbólica e coercitiva que os tempos de guerra possibilitavam.



No nordeste, de onde deveria sair o maior numero de soldados, o SEMTA convocou padres, médicos e professores para o recrutamento de todos os homens aptos ao esforço de guerra que tinha que ser empreendido nas florestas amazônicas. O artista suíço Chabloz foi contratado para produzir material de divulgação acerca da “realidade” que os esperava. Nos cartazes coloridos os seringueiros apareciam recolhendo baldes de látex que escorria como água de grossas seringueiras. Todo o caminho que levava do sertão nordestino, seco e amarelo, ao paraíso verde e úmido da Amazônia estava retratado naqueles cartazes repletos de palavras fortes e otimistas. O bordão “Borracha para a Vitória” tornou-se o emblema da mobilização realizada por todo o nordeste.



Histórias de enriquecimento fácil circulavam de boca em boca. “Na Amazônia se junta dinheiro com rodo”. Os velhos mitos do Eldorado amazônico voltavam a ganhar força no imaginário popular. O paraíso perdido, a terra da fartura e da promissão, onde a floresta era sempre verde e a seca desconhecida. Os cartazes mostravam caminhões carregando toneladas de borracha colhidas com fartura pelos trabalhadores. Imagens coletadas por Chabloz nas plantações da Firestone na Malásia, sem nenhuma conexão com a realidade que esperava os trabalhadores nos seringais amazônicos. Mas, perder o que? Afinal de contas - espalhadas pelas esquinas, nas paredes das casas e nos bares - a colorida propaganda oficial garantia que todos os trabalhadores teriam passagem grátis e seriam protegidos pelo SEMTA.



Quando nem todas as promessas e quimeras funcionavam, sempre restava o bom e velho recrutamento forçado de jovens. A muitas famílias do sertão nordestino foram dadas somente duas opções: ou seus filhos partiam para os seringais como soldados da borracha ou então deveriam seguir para o front lutar contra os italianos e alemães. Muitos preferiram a Amazônia.



Os caminhos da guerra



Ao chegar aos alojamentos organizados pelo SEMTA o trabalhador recebia um chapéu, um par de alparcatas, uma blusa de morim branco, uma calça de mescla azul, uma caneca, um talher, um prato, uma rede, cigarros, um salário de meio dólar por dia e a expectativa de logo embarcar para a Amazônia. Os navios do Loyd saiam dos portos nordestinos abarrotados de homens, mulheres e crianças de todas as partes do Brasil. Primeiro rumo ao Maranhão e depois para Belém, Manaus, Rio Branco e outras cidades menores onde as turmas de trabalhadores seriam entregues aos “patrões” (seringalistas) que deveriam conduzi-los até os seringais onde, finalmente, poderiam cumprir seu dever para com a Pátria.



Aparentemente tudo muito organizado. Pelo menos frente aos olhos dos americanos que estavam nos fornecendo centenas de embarcações e caminhões, toneladas de suprimentos e muito, muito, dinheiro. Tanto dinheiro que dava pra desperdiçar em mais propaganda, em erros administrativos que faziam uma pequena cidade do sertão nordestino ser inundada por um enorme carregamento de café solicitado não se sabe por quem, ou no sumiço de mais de 1.500 mulas entre São Paulo e o Acre.



Na verdade, o caminho até o eldorado amazônico era muito mais longo e difícil do que poderiam imaginar tanto americanos quanto soldados da borracha. A começar pelo medo do ataque dos submarinos alemães que se espalhava entre as famílias amontoadas a bordo dos navios do Loyd comboiados por caça-minas e aviões de guerra. Memórias marcadas por aqueles momentos em que era proibido acender fósforos ou mesmo falar. Tempos de medo que estavam só começando.



A partir do Maranhão não havia um fluxo organizado de encaminhamento de trabalhadores para os seringais. Freqüentemente era preciso esperar muito antes que as turmas tivessem oportunidade para seguir viagem. A maioria dos alojamentos que recebiam os imigrantes em transito eram verdadeiros campos de concentração onde as péssimas condições de alimentação e higiene acabavam com a saúde dos trabalhadores antes mesmo que fizessem o primeiro corte nas seringueiras.



Não que não houvesse comida. Havia, e muita. Mas era tão ruim, tão mal feita, que era comum ver as lixeiras dos alojamentos cheias enquanto as pessoas adoeciam com fome. Muitos alojamentos foram construídos em lugares infestados pela malária, febre amarela e icterícia. Surtos epidêmicos matavam dezenas de soldados da borracha e seus familiares nos pousos de Belém, Manaus e outros portos amazônicos. O atendimento médico inexistia longe das propagandas oficiais e os conflitos se espalhavam entre os soldados já quase derrotados.



A desordem era tanta que muitos abandonaram os alojamentos e passaram a perambular pelas ruas de Manaus e outras cidades buscando um modo de retornar a sua terra de origem, ou de pelo menos sobreviver. Outras tantas revoltas paralisaram os gaiolas em meio de viagem diante das alarmantes notícias sobre a vida nos seringais. Pequenos motins rapidamente abafados pelos funcionários da SNAPP ou da SAVA. Esse parecia ser então um caminho sem volta.



Soldados da floresta



Os que conseguiam efetivamente chegar aos seringais depois de três ou mais meses de viagem já sabiam que suas dificuldades estavam apenas começando. Os recém chegados eram tratados como “brabos”. Aqueles que ainda não sabem cortar seringa e cuja produção no primeiro ano é sempre muito pequena. Só a partir do segundo ano de trabalho o seringueiro era considerado “manso”. Mesmo assim, desde o momento em que era escolhido e embarcado para o seringal, o brabo já começava a acumular uma divida com o patrão.



Uma divida que crescia rapidamente porque tudo que recebia era cobrado. Mantimentos, ferramentas, tigelas, roupas, armas, munição, remédios, tudo enfim era anotado na sua conta corrente. Só no fim da safra a produção da borracha de cada seringueiro era abatida do valor de sua dívida. Mas o valor de sua produção era, quase sempre, inferior a quantia devida ao patrão. E não adiantava argumentar que o valor cobrado pelas mercadorias no barracão do seringalista era cinco ou mais vezes maior do que aquele praticado nas cidades, os seringueiros eram proibidos de vender ou comprar de outro lugar. Cedo os soldados da borracha descobriam que no seringal a palavra do patrão era a lei e a lógica daquela guerra.



Os financiadores americanos insistiam que não se deveriam repetir os abusos do sistema de aviamento que caracterizaram o primeiro ciclo da borracha. Na pratica, entretanto, o contrato de trabalho assinado entre seringalista e soldado da borracha quase nunca foi respeitado. A não ser para assegurar os direitos dos seringalistas. Como no caso da clausula que impedia o seringueiro de abandonar o seringal enquanto não saldasse sua divida com o patrão, o que tornava a maioria dos seringueiros verdadeiros prisioneiros de suas colocações de seringa.



Todas as tentativas de implantação de um novo regime de trabalho, como o fornecimento de suprimentos direto aos seringueiros, fracassaram diante da pressão e poderio das casas aviadoras e dos seringalistas que dominavam secularmente o processo da produção da borracha na Amazônia.



Uma Guerra que não terminou



Mesmo com todos os problemas enfrentados (ou provocados) pelos órgãos encarregados da Batalha da Borracha cerca de 60.000 pessoas foram enviadas para os seringais amazônicos entre 1942 e 1945. Desse total quase a metade acabou morrendo em razão das péssimas condições de transporte, alojamento e alimentação durante a viagem. Como também pela absoluta falta de assistência médica, ou mesmo em função dos inúmeros problemas ou conflitos enfrentados nos seringais.



Ainda assim o crescimento da produção de borracha na Amazônia nesse período foi infinitamente menor do que o esperado. O que levou o governo norte-americano, já a partir de 1944, a transferir muitas de suas atribuições para órgãos brasileiros. E tão logo a Guerra Mundial chegou ao fim, no ano seguinte, os Estados Unidos se apressaram em cancelar todos os acordos referentes à produção de borracha amazônica. Afinal de contas, o acesso às regiões produtoras do sudeste asiático estava novamente aberto e o mercado internacional logo se normalizaria.



Era o fim da Batalha da Borracha, mas não da guerra travada pelos soldados dela. Muitos, imersos na solidão de suas colocações no interior da floresta, sequer foram avisados que a guerra tinha terminado, só vindo a descobrir isso anos depois. Alguns voltaram para suas regiões de origem como haviam partido, sem um tostão no bolso, ou pior, alquebrados e sem saúde. Outros conseguiram criar raízes na floresta e ali construir suas vidas. Poucos, muito poucos, conseguiram tirar algum proveito econômico dessa batalha incompreensível, aparentemente sem armas, sem tiros, mas com tantas vítimas.



Pelo menos uma coisa todos os soldados da borracha, sem exceção, receberam. O descaso do governo brasileiro, que os abandonou a própria sorte, apesar de todos os acordos e promessas feitos antes e durante a Batalha da Borracha. Só a partir da Constituição de 1988, mais de quarenta anos depois do fim da Guerra Mundial, os soldados da borracha passaram a receber uma pensão como reconhecimento pelo serviço prestado ao país. Uma pensão irrisória, dez vezes menor que a pensão recebida por aqueles que foram lutar na Itália. Por isso, ainda hoje, em diversas cidades brasileiras, no dia 1º de maio os soldados da borracha se reúnem para continuar a luta pelo reconhecimento de seus direitos.



Nem poderia ser diferente já que dos 20.000 brasileiros que lutaram na Itália morreram somente 454 combatentes. Enquanto que entre os quase 60.000 soldados da borracha cerca da metade morreu durante a guerra. Apesar disso, com a mesma intensidade com que os pracinhas foram recebidos triunfalmente pela sociedade brasileira, após o fim da Segunda Grande Guerra Mundial, os soldados da borracha foram incompreensivelmente abandonados e esquecidos, afinal de contas eram todos igualmente soldados.

O Acre foi construído através da participação de diferentes grupos étnicos, mas sua história, como sempre, foi construída apenas por alguns. Por isso, desde sua organização como espaço brasileiro o Acre deu lugar a escritura de uma história de bravos e pioneiros povoadores nordestinos. Muitos foram os pensadores da Amazônia que, ao longo do século XX, explicaram genericamente o Acre como obra fundamental de cearenses. Consolidava-se assim uma versão histórica que interessava a oligarquia extrativista amazônica contraposta aos cafeicultores do sul que, no princípio do século passado, dominavam a republica brasileira.



Mais recentemente, a partir de experiências educacionais e de uma relativa revisão historiográfica, cresceu o reconhecimento da história dos grupos indígenas nativos acreanos como parte importante de uma “História do Acre”. O que certamente representou um significativo avanço sobre a compreensão do Acre como espaço etnicamente múltiplo.



Entre estes dois momentos extremos surgiram ainda diversos livros e trabalhos dando conta da contribuição de povos árabes (os famosos sírio-libaneses) na formação da sociedade acreana. Romances, contos e memórias cuja publicação foi impulsionada pela bem sucedida estratégia de ascensão econômica e social que esses imigrantes árabes protagonizaram ao longo da história acreana até se tornarem parte das elites regionais dominantes.



E quanto à presença negra no Acre? O que existe publicado sobre o tema? O que faz com que a participação de negros na formação da sociedade acreana seja até hoje, na pratica, invisível?



Certamente isso não se deve a história acreana, mas a uma certa forma de compreende-la. É preciso romper com o silencio dominante, como é preciso jogar luz sobre o que parece invisível e fazer ressaltar suas cores. Esse artigo é apenas um principio... nos dois sentidos do termo.



O Navegador Negro



Antes de 1850 o Acre estava ainda na pré-história e não existia para a sociedade civilizada. Ninguém sabe quantos aventureiros subiram os rios da Amazônia Ocidental vindos do Amazonas, da Bolívia e do Peru antes desse período. Destes possíveis aventureiros anônimos não ficaram registros, memórias e nem mesmo lendas. As florestas do extremo oeste amazônico ainda pertenciam ao reino do imaginário, povoadas por índios com rabos, mapinguaris, índios de meio metro de altura, cobras grandes ou índios brancos e de olhos claros quando começaram as primeiras explorações da região. E coube exatamente a um caboclo negro, nascido nas margens do Manacapuru, a missão de explorar o rio Acre até suas cabeceiras.



Manoel Urbano da Encarnação se tornou uma verdadeira lenda no Purus e seus afluentes na segunda metade do século XIX. Diretor de Índios nomeado pelo governo da Província do Amazonas para o vale do Purus, Manoel Urbano realizou o prodígio de explorar a região sem violência, ao contrário do que fizeram os europeus por toda a América, estabelecendo amistosas relações de cooperação com os grupos indígenas nativos destas terras. Tanto assim que era comumente chamado pelos índios como “Tapauna Catu” que, segundo Castelo Branco Sobrinho, significava negro bom. Com um sentido totalmente diverso do termo “negro bom” do período colonial que se referia a um escravo manso e/ou trabalhador segundo a ótica de seus senhores.



Pratico insuperável na arte de navegar os perigosos rios acreanos, Manoel Urbano percorreu essa região durante décadas. Guiou o inglês William Chandless que se encantou com sua “grande inteligência natural”, plantou as sementes de futuras cidades do Purus, espalhou seus filhos por esses barrancos e estabeleceu boas relações com os diversos povos indígenas do Aquiri, Purus e Iaco. Enfim, Manoel Urbano não só descobriu o Acre como foi seu primeiro civilizador, criando as bases de uma sociedade multirracial que estava reservada a um futuro ainda distante, apesar de seus mais de cento e vinte anos de idade, segundo as ultimas lendas que se ouviram sobre esse caboclo negro e bom nas margens do Purus.



Acre – um resumo do mundo



Tão logo começou a febre do ouro vegetal, a borracha, que brotava abundante de arvores amazônicas, uma corrente humana foi criada e levou milhares de homens cada vez mais longe floresta adentro. O ano de 1880 marcou a chegada dessa avassaladora onda humana às terras acreanas. Brasileiros de todas as partes: Amazonas, Pará, Maranhão, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Bahia, Pernambuco, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul que se misturaram aos muitos espanhóis, portugueses, judeus, sírios, libaneses, turcos, italianos, ingleses, barbadianos, bolivianos e peruanos, entre outros.



Em menos de vinte anos, ao raiar do século XX, o Acre havia se transformado de território indígena em um verdadeiro resumo do mundo, apesar da predominância absoluta de brasileiros de diferentes origens. Uma nova sociedade construída a partir da diversidade étnica e cultural dos que para cá migraram em busca da fortuna da borracha e na qual podemos identificar uma importante participação negra. Tão significativa quanto à própria presença de negros na sociedade brasileira da época.



A única lacuna existente a esse respeito se refere ao fato de que ainda não encontramos vestígios arqueológicos ou históricos que revelem a presença antiga de quilombolas em terras acreanas. Apesar dessa presença ser perfeitamente possível, o Acre ainda estava muito distante das regiões que possuíam escravos africanos antes da navegação a vapor, na segunda metade do século XIX. Mesmo assim podemos levantar a hipótese de grupos de escravos fugitivos terem chegado ao Acre descendo o rio Madeira ou subindo o Purus e o Juruá. Mas isso, por enquanto, é apenas especulação. Ou então, teremos que ampliar nossa compreensão sobre o que eram comunidades quilombolas e assim rever a história acreana a partir de uma nova conceituação, como tem sido sugerido pelos movimentos que atualmente lutam pela igualdade racial no Brasil.



Por outro lado me parece que não podemos desprezar a vinda de fugitivos de Canudos para o Acre como sinal evidente que essa região se tornou área de refugio para muitos dos deserdados e perseguidos da Republica brasileira. Para essas comunidades, muitas das quais certamente negras, a nova sociedade da borracha que se formava por aqui deveria aparecer, pelo menos, como a possibilidade de uma vida um pouco mais digna. Uma nova sociedade contraditória, é verdade, porque ainda que a possibilidade de ascensão social no Acre fosse real, também era muito concreta a possibilidade de ser aprisionado em um novo tipo de escravidão que aqui se desenvolveu: a escravidão por dívidas.



Negros de Rio Branco – um resumo do Acre



Já no princípio do século XX um dos primeiros bairros da Vila Rio Branco se chamava África. Uma surpreendente pequena África acreana que os relatórios oficiais registraram apenas superficialmente, mas que a memória dos antigos moradores do bairro Seis de Agosto manteve viva até os dias de hoje. Assim pudemos saber que a antiga rua da África é a mesma rua 1º de Maio, traçada ao longo da margem do rio Acre e que ainda resiste à força de sua correnteza no segundo distrito da capital acreana. Uma rua chamada África porque ali moravam muitas das famílias negras do povoado nascente.



Os mesmos antigos moradores da Seis de Agosto ainda lembram e falam de um tcerto Absolon, negro de origem incerta e fé muçulmana, que também vivia no segundo distrito misturado ao “turcos” da rua do Comércio (atual Eduardo Assmar). Como, em outras partes da cidade, se fala também da família dos Caetanos que há décadas se instalaram em Rio Branco, vinda da região de Conceição dos Caetanos, que era um importante enclave territorial de negros nordestinos.



A memória dos moradores de Rio Branco registra ainda muitas outras histórias de personagens ou de comunidades negras na constituição deste ou daquele bairro ou rua. Como no caso da lendária fuga de um grupo de negros barbadianos da construção da Ferrovia Madeira-Mamoré e que teria vindo bater no Acre. O curioso dessa memória é que não encontramos outras referencias sobre esse grupo, além da história oral. Podemos especular que teriam vindo para cá entre 1906 e 1912 (período das obras da ferrovia), mas não conhecemos famílias ou indivíduos com o característico sobrenome inglês em Rio Branco, como é o caso de um bairro de Porto Velho ainda habitado por negros barbadianos com estranhos sobrenomes (Shockness, Johnson ou Chase).



Em outros casos podemos identificar marcas muito mais nítidas, deixadas pelos negros que “fizeram” o Acre, no próprio corpo da cidade. É o caso do Capitão Ciríaco, um “caboclo escuro” do sertão maranhense que lutou na Revolução Acreana obtendo a patente de capitão, que guardava com imenso orgulho junto com as armas que utilizou durante a guerra. Como se não bastasse sua luta em prol da causa acreana, que lhe custou traumas e tristezas carregados até o fim da vida, Capitão Ciríaco ainda plantou um verdadeiro seringal dentro de Rio Branco e que até hoje permanece como uma importante área verde da cidade por ter se tornado um parque histórico e ambiental há pouco mais de dez anos.



Outro combatente negro da Revolução Acreana foi Pio Nazário, que de tão ágil e rápido ganhou o apelido de “Pisa nas Asas”, graças à sua decisiva e corajosa atuação no segundo combate da Volta da Empreza (ali perto da Gameleira) quando conseguiu lançar bombas incendiárias sobre o acampamento boliviano. Segundo notícias dos jornais da época, Pio Nazário era morador do Xapuri, onde virou até nome de rua.



Essa multiplicação de memórias e histórias identificadas na formação de Rio Branco mostra claramente a importância e a diversidade de homens e mulheres de cor negra nas primeiras décadas da construção da sociedade acreana. E não existem motivos pra imaginar que os outros povoados e seringais acreanos dessa época não tenham conhecido uma presença negra tão significativa quanto Rio Branco.



A luz multicor da floresta



Nem só de exemplos localizados se deve construir a história negra do Acre que ainda possui conexões e entrelaçamentos pouco estudados. Este é o caso da criação de uma religião tipicamente acreana e de configuração genuinamente amazônica: o Santo Daime. Compreendido, não apenas como um chá feito a partir da composição de plantas da floresta, mas como uma religião com um corpo doutrinário próprio e a recombinação elementos de diversas tradições étnicas.



Apesar do Santo Daime já ter sido explorado em muitas reportagens, teses, dissertações e livros. Nada se publicou sobre a intima relação entre a formação dessa doutrina e a participação direta e decisiva de negros oriundos da baixada maranhense. Para avaliarmos a importância desta relação temos que tentar reconstituir, ainda que rapidamente, a seqüência de acontecimentos que levaram a criação de uma nova religião na Amazônia em pleno século XX.



O uso do chá feito pela mistura do cipó (jagube) com a folha (chacrona) é milenar entre diversos grupos indígenas amazônicos em uma extensa área que começa nas selvas da Colômbia, passando pelo Brasil, Bolívia e Peru até alcançar os contrafortes dos Andes. Mas a utilização da Ayahuasca, o vinho das almas, nas civilizações andinas ainda não está de todo clara. A princípio seu uso era um conhecimento mágico típico de povos da floresta que lhe davam diferentes nomes e o empregavam a partir de um conjunto comum de conhecimentos de natureza espiritual.



Durante décadas, após o inicio do povoamento das florestas acreanas pelos seringueiros, o uso do “Cipó” permaneceu como um conhecimento restrito aos pajés indígenas e incompreensível para os brancos que habitavam a região. Só nos primeiros anos do século XX começaram a ocorrer no Alto Acre experiências místicas e religiosas feitas por brasileiros.



Segundo histórias que circulam de boca em boca, sobre as quais temos apenas referencias genéricas em algumas publicações, foram os irmãos André e Antonio Costa os primeiros a aprender o uso do chá com xamãs bolivianos em Brasiléia. Teria sido fundado nessa cidade um pioneiro centro de uso do cipó por não-indígenas onde se começou a esboçar uma serie de explicações esotéricas que permitia a compreensão dos efeitos do chá sob uma nova ótica religiosa. Existem, inclusive, indícios de perseguição policial dos praticantes brasileiros do uso do cipó e de fechamento desta primeira “igreja” pelo delegado Odilon Pratagi, que mais tarde teria permitido seu funcionamento.



Ainda segundo a tradição oral, Irineu Serra, um negro grande e forte, imigrante do Maranhão, conheceu em Brasiléia por volta de 1912, os irmãos Costa, igualmente negros maranhenses, através de quem ele teria tido contato com o chá. Porém, algum tempo depois desse encontro, Irineu teve sua própria iniciação mágica no uso do chá, recebendo na floresta uma missão religiosa que passaria a desenvolver desde então. Mas é possível que a influência dos irmãos Costa na transposição do chá da sociedade indígena para a sociedade acreana também tenha sido importante nesses momentos iniciais.



De toda forma, foi Irineu Serra quem chamou o chá do cipó e da chacrona de Santo Daime e passou a compor uma doutrina que, apesar de incorporar diversos elementos indígenas e negros tinha uma base e um calendário fundamentalmente cristão. Foi a maneira encontrada por Irineu para traduzir para nossa própria sociedade, de base católica, o conhecimento espiritual e transcendente proporcionado pelo Daime. Na construção dessa nova religião foi decisiva a herança cultural, religiosa e sincrética de Irineu que reunia elementos religiosos da tradição africana presente nas Casas das Minas, bem como da forte influencia católica estabelecida entre as famílias descendentes de escravos da baixada maranhense.



Mais tarde, outro negro do Maranhão, também filho (ou neto como Irineu) de escravos, Daniel Matos, se envolveria com o Santo Daime através de Irineu Serra. Este marinheiro que também havia chegado ao Acre nos primeiros anos do século XX decidiu ficar morando e trabalhando em Rio Branco. Barbeiro, musico, boêmio, Daniel Matos adoeceu e foi tratado por Irineu com o Santo Daime. Depois de muitas idas e vindas, Daniel abandonou a boêmia e fez de sua casa um centro de tratamento espiritual.



Tinha início assim uma nova linha de trabalho religioso com o Santo Daime. Daniel Matos estabeleceu novos fundamentos doutrinários de matriz africana em seu trabalho como curador. Diferente de Irineu, Daniel nem sempre usava o maracá ou o bailado, que eram elementos da cultura indígena amazônica, ao mesmo tempo em que acrescentou o trabalho com caboclos e preto-velhos, característico da Umbanda de matriz afro-brasileira.



Desde então estavam estabelecidos os dois troncos principais a partir dos quais se desenvolveu o Santo Daime como uma religião popular acreana de raiz tão afro-brasileira quanto indígena. Teve início no Acre uma longa trajetória de dificuldades e preconceitos que teve que ser superada pelos seguidores de Irineu e Daniel antes que o Daime fosse socialmente aceito e se espalhasse para o mundo como uma nova e verdadeira religião, inesperadamente nascida da floresta em pleno século XX, mas isso já é outra história.



A cor da alma acreana



Neste ponto já está evidente que se pudéssemos percorrer em detalhes toda a história do Acre veríamos a multiplicação de ocorrências semelhantes àquelas descritas até aqui. Basta um olhar mais atento para identificarmos a participação de afro-descendentes em todas as etapas da formação da sociedade acreana. Bem como é possível identificar a influencia negra nos usos e costumes mais comuns e cotidianos de seu povo.



Exemplos não faltam para ilustrar esta afirmação. Basta lembrar da alegria e calor revelados no depoimento de seu Elpídio, negro cearense que veio para o Acre como soldado da borracha em recente vídeo-documentário, para perceber que boa parte do exército que veio para cá na Batalha da Borracha era negro. Ou então, podemos ressaltar a importância de Da Costa, acreano de Rio Branco, que além de ajudar a construir o Palácio Rio Branco, marcou uma época da vida musical acreana através de seus sambas. Ou Santinho, um baiano-acreano de espírito carioca, que popularizou e disseminou as Escolas de Samba no Acre.



Na verdade, o campo das artes e da cultura sempre foi terreno pródigo de atuação dos negros acreanos. Mas, pra não dizer que não falei das flores, não devemos esquecer de mencionar a atuação de diversas mulheres negras nessa história. Seja na política através do exemplo de Laélia Alcântara que foi a primeira senadora negra do Brasil representando o Acre. Seja na produção acadêmica através da Professora Maria José Bezerra que, além de ser um exemplo de vida por sua luta e dignidade, é umas das historiadoras mais produtivas que a Universidade Federal do Acre já conheceu. Ressaltando sempre que estamos apenas relacionando exemplos que poderiam ser infinitamente multiplicados a partir de novas e mais profundas pesquisas, apenas para demonstrar a importância da participação dos afro-descendentes em diversas áreas e momentos da vida e da história acreana.



Porém, devemos ressaltar também que ficaram de fora desse artigo muitas manifestações culturais e históricas com características afro-brasileiras do processo formativo do Acre. Como as trajetórias específicas da Capoeira, da Umbanda e do Candomblé na região, além de muitos outros temas e personagens fundamentais para a compreensão do Acre contemporâneo. Assim podemos compreender a enorme importância de uma discussão mais profunda e responsável sobre a questão racial na Amazônia Ocidental. Uma discussão que só agora começa a se consolidar através das Conferencias pela Igualdade Racial e das articulações entre diferentes segmentos étnicos acreanos, como negros e índios. O que sem duvida terá que resultar no rompimento da invisibilidade forçada a que foram submetidos muitos indivíduos e comunidades em uma sociedade tão múltipla e diversificada quanto a nossa e assim poder afirmar: o Acre é, e sempre foi, também negro.

A origem do nome Acre



Por Marcos Vinicius Neves



Contam os primeiros viajantes e cronistas que, em meados do século XIX, o rio "Acre" era chamado pelos índios Apurinã, que habitavam milenarmente essa região, como rio Aquiry ou Uaquiri. Esses mesmos cronistas divergem acerca do significado desse nome indígena, mas Castelo Branco Sobrinho em seus trabalhos sobre a antiga história do Acre esclarece que "Aquiry" pode ser traduzido como "Rio dos Jacarés" remetendo a abundancia deste animal neste rio, ou então como "Rio de muitas madeiras" em referencia à grande quantidade de troncos submersos que atrapalhavam a navegação do rio mesmo na época das cheias. Castelo Branco chama atenção ainda para o fato de que a primeira tradução (rio dos jacarés) era a mais provável de corresponder ao nome efetivamente utilizado pelos Apurinã.



Os seringueiros que ocuparam a região a partir das duas ultimas décadas do século XIX, pouco afeiçoados ao linguajar indígena não pronunciavam corretamente o nome Aquiry, por isso aos poucos a toponímia indígena foi sendo corrompida. Aquiry, Acri, Acre. Assim, consta do lendário popular acreano que foi João Gabriel, um dos pioneiros da exploração do rio Acre, que ao mandar correspondência para o Visconde de Santo Elias, que aviava seus pedidos de mercadorias a partir de Manaus, solicitou novos aviamentos para suas terras às margens do rio "Acre" (utilizando a forma corrompida de Aquiry). Forma que se disseminou e passou não só a denominar esse rio como, posteriormente, todo o território disputado com os bolivianos durante a revolução acreana e que viria a se constituir no atual estado do Acre.

A República do Acre e Galvez



Por Marcos Vinicius Neves



Até hoje a figura de Luís Rodrigues Galvez de Árias permanece inexplicada na consciência brasileira e acreana. A começar por sua nacionalidade, afinal de contas não se conhece muitos exemplos da presença espanhola na história brasileira.



Galvez entrou repentinamente na história da questão acreana e quando menos se esperava, havia passado da condição de coadjuvante para a de protagonista. Essa entrada súbita e inesperada em cena se deve em parte aos seus próprios méritos de homem ilustrado e carismático, mas em boa parte deve ser creditada ao vácuo produzido pela a indefinição com que os governos do Amazonas, do Brasil e da Bolívia tratavam a questão dos territórios além da linha Cunha Gomes.



Galvez não criou nada. Os seringalistas e seringueiros já haviam expulsado os bolivianos duas vezes antes de sua chegada ao Acre. Os brasileiros habitantes do baixo-Acre, haviam mesmo se declarado em situação revolucionária e estabelecido uma junta governativa para exercer a autoridade nos territórios conflagrados a partir de 1o de maio de 1899. Os problemas internacionais suscitados pela questão acreana já ocupavam as páginas da imprensa brasileira e as tribunas políticas desde 1895 pelo menos, acompanhadas de manifestações de vários intelectuais identificados com diferentes concepções ideológicas.



Nesse contexto a presença do espanhol Luís Galvez deixa de ser tão inexplicável. Desde que denunciara o acordo entre o ministro boliviano e autoridades norte-americanas, sua figura se tornara grata aos que advogavam em favor dos brasileiros do Acre. Estes últimos se encontravam em uma situação delicada especialmente pela dificuldade de encontrar uma direção a seguir, faltava ainda uma proposta concreta para guiar os homens e as idéias.Foi da articulação de uma saída viável para a situação do Acre que se sedimentou a participação de Galvez no movimento revolucionário. Ninguém sabe ao certo de quem partiu a idéia da fundação de um Estado Independente no Acre. Talvez o mais correto seja aceitar que a idéia surgiu da reunião de diferentes personagens e interesses. É certo que durante os meses de maio e junho ocorreram intensas movimentações e negociações em Manaus e Belém. Reuniam-se ali representantes dos governos estaduais, representantes dos revolucionários do Acre (dentre os quais já se encontrava Galvez), comerciantes das duas praças, políticos que viam naquela articulação a possibilidade de aumentar seu espaço e de jornalistas que buscavam aumentar a tiragem e o prestígio de seus veículos informativos. Porém foi só a partir do dia 14 de julho que todos puderam conhecer as habilidades e a capacidade de liderança de Galvez. Seu governo, sujeito à diferentes e contraditórias descrições, se revelou hábil ao aglutinar com clareza de objetivos os mais diversos tipos de homens. Ele empolgava com seus discursos e seus modos estudados tanto a seringalistas, quanto a advogados, comerciantes e seringueiros de todas as origens e foi graças a essa característica que durante oito meses resistiu, nos altos rios do Acre, um novo pais cuja existência punha em xeque forças nacionais e internacionais tremendas. Acompanhemos, então, alguns momentos da fantástica história da Republica do Acre e de seu exótico presidente.



1899



julho



Os dias que antecederam a data marcada para a proclamação do Estado Independente do Acre foram de intensa propaganda pelos direitos brasileiros. Com isso, Galvez e seus correligionários conseguiram disseminar a idéia de uma oposição armada, se necessário, para impedir a apropriação dos seringais pelos estrangeiros.



No dia 14 de julho, às 9 horas da manhã, foi realizada em Puerto Alonso, uma reunião com todos os membros da Junta Revolucionária do Acre, o povo e Luiz Galvez, como representante da Junta nos Estados do Pará e Amazonas. Depois de lidas todas as atas da Junta Revolucionária, que foram aprovadas, deram a palavra à Luiz Galvez que conseguiu contagiar a todos os presentes com o ânimo necessário para realizar tamanha empreitada. O final de seu discurso foi abafado por grande ovação e uma longa salva de palmas sendo aprovada por aclamação a criação da República do Acre. Também por aclamação Luiz Galvez foi escolhido para ocupar o cargo de presidente do novo pais. A bem da verdade, tratava-se de uma ótima solução porque evitava comprometer ainda mais os revolucionários brasileiros como promotores de uma aventura que poucos podiam imaginar como terminaria. Galvez que não tinha nada a perder, nem propriedades, nem débitos nas praças de Manaus e Belém, aceitou a missão que lhe era confiada.



A primeira atitude do Presidente do recém criado Estado Independente do Acre foi reunir seus conselheiros políticos e tratar de organizar política e administrativamente o Governo e sendo logo depois divulgada a composição do Ministério, totalmente formado por seringalistas e comerciantes da borracha, numa hábil composição política que garantia uma governabilidade minima à Galvez:







Ministro da Justiça – Coronel Hipólito Moreira



Ministro do Exterior – Dr. Albino dos Santos Pereira



Ministro da Fazenda – Joaquim Domingos Carneiro



Ministro da Guerra – Coronel José Galdino de Assis Marinho



Ministro da Marinha – João Francisco Xavier



Chefe de Polícia – Coronel João Passos d’Oliveira



Secretário-Geral – Professor Ezequiel Alves de Araújo Primo.





O Presidente da Republica do Acre começou imediatamente a trabalhar na planejada organização, o que fez de forma febril, baixando um decreto atrás do outro, quando revelou sua imensa capacidade de articulação política e legal.



Esses decretos cuidavam de todos os detalhes necessários para a organização de um pais. Definiu como capital a Cidade do Acre (ex-Puerto Alonso); criou uma bandeira que apresentava as mesmas cores da bandeira brasileira; validou a língua, a moeda, os certificados de propriedade, as taxas alfandegárias e demais códigos e leis do Brasil como oficiais no Estado Independente do Acre; mandou que se recolhessem os impostos sobre a importação e exportação na recebedoria de rendas públicas do Amazonas; definiu o jornal Commercio do Amazonas como veiculo informativo dos atos oficiais provenientes do governo do Acre; organizou diversas secretarias, diretorias, repartições, instituições de ensino divididas em Escola Normal, Ginásio e Liceu de Artes e Oficios; concedeu vantagens para aqueles que introduzissem novas indústrias e artes, exploração e cultura do solo, fundação de centros populosos, construção de oficinas, fábricas e outros melhoramentos públicos.



Enquanto isso, as notícias vindas do Acre causavam intensa comoção, primeiro no Amazonas, depois em Belém e a partir daí em todo o Brasil. Haviam até jornalistas, correspondentes dos jornais de Manaus, acompanhando os momentos iniciais do Estado Independente do Acre e descrevendo tudo o que ali se passava. As páginas dos jornais brasileiros estavam ávidos por mais informações acerca daquela inédita forma de revolução que vinha da longínqua Amazônia Ocidental.



Agosto

As atividades desenvolvidas por Galvez à frente do governo da Republica do Acre guiavam-se pelo acordo tácito que havia sido estabelecido pela proclamação que criou o novo país. O objetivo verdadeiro e declarado era libertar a região do domínio boliviano e logo a seguir se anexar ao Brasil como mais um dos estados da federação brasileira. Era o ideal republicano e patriótico que estava sendo ofertado àqueles homens que se viram repentinamente sem direito à cidadania brasileira. Essa era a cola que unia a maioria dos habitantes do Acre.



O dia 12 de agosto foi considerado feriado nacional já que nesta data o Presidente Galvez deu por terminado o período revolucionário e outorgou a Constituição Política do Estado Independente do Acre. A Carta Magna da Republica do Acre marcava, ainda, eleições para o dia 15 de janeiro de 1900, devendo o Congresso eleito reunir-se a 10 de março, para julgar a Constituição e eleger o presidente e o vice-presidente.



A popularidade do Presidente crescia a olhos vistos, tanto assim que em 14 de agosto lhe foi enviado um manifesto, assinado por várias pessoas no Seringal Catuaba, de adesão ao Estado Independente do Acre.



Porém nem tudo estava sob controle. Ainda em agosto ocorreram também os primeiros indícios de perturbação da paz na República do Acre. O primeiro tropeço administrativo surgiu com a negativa do inspetor da alfândega de Manaus de permitir que a Recebedoria de Rendas Estaduais entregasse as importâncias originárias dos impostos sobre a borracha, na forma estabelecida pelo decreto número cinco, do Presidente do Acre.



Setembro



Com a situação político-administrativa razoavelmente organizada, Galvez dirigiu correspondências a diversos países requerendo o reconhecimento do novo país. E foi justamente os Estados Unidos, sobre o qual pesavam acusações de tramar acordos secretos com a Bolívia em relação ao controle do Acre, o primeiro a responder negativamente a essas demarches diplomáticas.



Esse revés foi logo seguido de outro de gravidade mais imediata para a manutenção da ordem na Republica do Acre. De Xapuri vinham notícias da organização de uma oposição ao governo de Galvez sob o nome de "Comissão Garantidora dos Direitos Brasileiros". Ao mesmo tempo, circulavam boatos de ações ameaçadoras por parte de dois proprietários do baixo-acre, de Neutel Maia de Empreza e do Capitão Leite, proprietário do seringal Humaitá.



Ao mesmo tempo, aumentava a pressão do governo federal brasileiro sobre o governo do Amazonas para que fossem tomadas providencias que pusessem fim aos "Sucessos do Acre". Ninguém desconhecia o apoio que era fornecido pelo Governador Ramalho Junior aos Revolucionários do Acre. Assim como todos sabiam do interesse do Amazonas que a região do Acre fosse considerada litigiosa pelo governo brasileiro, dessa forma a questão do domínio boliviano sobre aquelas terras passaria a ser contestável.



Outubro



O público brasileiro continuava vivamente interessado em tudo o que se referia ao Acre. As opiniões se dividiam e os jornais expressavam os mais díspares pontos de vista. Alguns destratavam violentamente Galvez classificando seu governo como "a ressurreição da opereta Ofenbach" e acentuando o exotismo e teatralidade farsesca de tudo quanto se passava alí. Enquanto isso, o jornalista correspondente no Acre continuava a mandar notícias entusiasmadas acerca da Republica da borracha.



"Em 22 de outubro já estavam terminados e funcionando os seguintes edifícios:



Casa do Governo; Câmara Municipal; Alfandega; Capitania do Porto; Trapiche 14 de Julho; Polícia; Cadeia; Escola Publica; Saúde Publica; Correio; Depósito Público; Obras Públicas; Casa de Misericórdia; Igreja de Nossa Senhora do Acre; Registro Civil e Fórum. Tudo isto foi construído nas ruas abertas e que tomaram os nomes de: Avenida Brazil; Rua do Ceará; Rua Damasceno Girão; Rua Amazonas; Largo 14 de Julho e Largo da Republica. Alem disto construi-se um: Hotel; Armazém; Padaria e Deposito de Estivas.... Todas as barracas são monumentais, construídas com madeira de lei e muito estéticas e bonitas; as ruas e largos foram escavados e simetricamente dispostos em uma área de 1.200 metros.



A saúde publica constitui a maior gloria para Galvez; admira contemplar o aceio da cidade, que é a base de conservar uma saúde desconhecida neste rio.



O Território do rio Acre, até ao Eco dos Andes, no Xapuri, foi dividido em 9 distritos militares, onde se acham mobilizados 11 batalhões da guarda patriótica, o que perfaz 4.400 homens em armas .... A instrução publica conta com: 12 escolas mistas de ensino primário.... O Território até agora ocupado pelos revolucionários, e que compreende 11.600 habitantes registrados, foi organizado em 2 municípios, - o do Acre, Capital esta cidade, e do Xapuri, Capital Soledade.... Até agora não existem mais que 2 Seringais que não aderiram á revolução e não reconheceram o governo....



Logo que se ancora produz admiração a enorme e monumental escada do porto, á qual poderão atracar os vapores de maior calado; este melhoramento não é conhecido em todo o rio Amazonas e os seus afluentes. Á esquerda da escada acha-se a guarita do vigia, elegante e vistosa, rodeada de artística grade; o monumental edifício onde se acham as repartições – capitania do porto, policia e alfândega, ocupa uma superfície de 20 metros quadrados; a valentia desta construção e a engenhosa divisão das repartições são muito celebradas. Entrando no Largo 14 de Julho, encontram-se a escola publica, bonito salão, higiênico e espaçoso – 9 X 7 metros; nas paredes acham-se penduradas as pedras do abc, algarismos, cartas e mapas geográficos; uma preciosa copia da Maddona representa a Nossa S. do Acre, venerada por este povo; esta pintura, aqui realizada, é obra do eminente pintor Antônio Rabasa. Bancos, escrivaninhas, etc, completam o mobiliário desta instrutiva dependência.



A Câmara Municipal, edificação das mesmas dimensões que a escola, contem balcão com repartições para o contador, tesoureiro e secretario; salão de sessões e dependências para o juiz municipal, promotor publico e escrivão do júri. Hotel Independência, cuja descrição já fiz em uma das minhas cartas anteriores. Além destas construções existem no Largo 14 de Julho 3 bonitos Chalés, ocupados pelos empregados públicos e comércio. Na Avenida Brazil admira-se a farmácia René; a Inspetoria de Higiene, o Deposito Publico, Registro Civil, Correio e diversas casas de vizinhos, que rivalizam em bom gosto e terminada construção.



Na Rua João Damasceno Girão, ilustre cearense, que muito contribuiu a explorar estas regiões, acham-se a Cadeia Publica, Santa Casa e o Fórum. Na Rua do Ceará foram construídos 7 Chalés para moradia, estando muito adiantadas as obras da igreja.



Deixei para o final a descrição da casa do governo. Este edifício ocupa uma superfície de 13 metros de frente por 20 metros de fundo, sendo a altura de 9,50 metros.



Á entrada do ingresso há monumental escada de 6 degraus, artísticas, simples e elegante. Salão de honra: as paredes são pintadas a óleo pelos pintores cidadãos Rabasa e Robles; na frente figura alegórico emblema da Republica, fechado pelas bandeiras do Brasil e do Acre; no centro, sobre pedra de mármore, lê-se o nosso lema "PATRIA E LIBERDADE"; todo o salão é rodeado de artístico e bem combinado desenho, cuja composição é admirável pela elegância das linhas e distribuição das cores.



Escritório da presidência e a secretaria do governo são de construção solida e adornos sérios, destacando-se uma oleografia do venerando Dr. Campos Sales, encerrada em artística e rica cercadura, construída aqui, de madeira nacional "andiroba".



Os 4 Departamentos, Justiça, Interior, Fazenda e Obras Publicas, acham-se instalados em repartições contiguas ao escritório do presidente. Muitas outras obras foram feitas no curto espaço de 4 meses, tempo que parece impossível para realizar tanto melhoramento, isto prova uma vez mais a incansável atividade e a boa administração do cidadão Galvez, que, se outra gloria não lhe coubesse, não poderão negar-lhe este esforço herculeo, vivo reflexo das suas invejáveis disposições; tudo foi feito debaixo da sua iniciativa e exclusiva direção.



Os operários, que contribuíram para esta surpreendente transformação, são em sua maioria cearenses, que respeitam o Chefe do Governo, que os dominou pela delicadeza e diplomacia, nele proverbiais. O rio Acre, tido até agora como mortífero, conseguiu ter uma cidade sadia, onde se desfruta excelente saúde. Desde o dia 14 de julho até á presente data não se registram mais que 4 defunções, sendo 2 ocasionadas pela malária e 2 por enfermidades já importadas pelas vítimas."



Novembro



Galvez sabia manipular o imaginário popular em seu proveito. O dia 15 de novembro, aniversário da proclamação da republica brasileira foi todo tomado por comemorações e manifestações de amor e solidariedade à Mãe-Pátria. Em pronunciamento público, Galvez proclamava que "O dia 15 de novembro de 1889 foi o precursor do dia 14 de julho de 1899. O primeiro libertou-nos do caduco e reacionário regime monárquico, o segundo é a demonstração patriótica, indiscutível, de nossas convicções republicanas. O povo que é governado pela Constituição da República do Brasil não pode aceitar leis estrangeiras: daí a nossa revolta e fundação do Estado Independente do Acre."



Aproveitando-se do momento internamente favorável o presidente Galvez baixou um novo decreto que instituiu o imposto chamado de "subscrição patriótica" que recaia tanto sobre seringalistas quanto sobre seringueiros para garantir a manutenção da milícia e compra de armamentos e vasos de guerra. Além disso estabeleceu, também por decreto, o imposto de 10 % a ser cobrado diretamente na alfândega de Cidade do Acre. Com isso Galvez reagiu frente à recusa da alfândega de Manaus de repassar os impostos recolhidos sobre a borracha do Acre.



Em mais uma inteligente jogada Galvez reclamou a neutralidade brasileira, quanto ao caso do Acre, já que o Brasil reconhecia como boliviana aquela região, não existindo nenhuma ameaça ao governo brasileiro neste caso.

Dezembro



Os rios acreanos começavam a tomar água, aumentando seu nível e abrindo a temporada de chegada dos vapores que anualmente transitavam por aqueles rios trazendo aviamentos e levando a borracha que alimentava as indústrias européias e norte-americanas. Começava, então, os momentos mais dificeis vividos por Galvez à frente do Estado Independente do Acre.



Apesar de ter enviado vários emissários ao alto-Acre para tentar dissuadir os proprietários dali de lhe fazerem oposição e unirem-se ao seu governo, a Comissão Garantidora dos Direitos Brasileiros continuava disseminando a desobediência a Galvez. Era chegada a hora de tomar atitudes mais drásticas, sob o risco de perder definitivamente o controle da situação. Por isso Galvez partiu em pessoa para Xapuri a bordo do aviso de guerra Liberdade que havia sido equipado com armamentos, buzinas e outras parafernálias que causavam admiração e espanto na população ribeirinha. A frente de tão estrondoso aparato bélico e da prisão de Neutel Maia, conseguiu acabar com a oposição que lhe era feita no alto-Acre, cujos habitantes hipotecaram-lhe irrestrito apoio.



Associado a essa ação de caráter interno, Galvez também reagiu frente aos boatos de deslocamentos de tropas bolivianas em direção ao Acre e às pressões que lhe chegavam do governo federal brasileiro e dos comerciantes de Manaus e Belém iniciando aquela que seria sua cartada decisiva: a proibição da exportação da borracha acumulada nos seringais do Acre. Não se pode esquecer que reter o fluxo da única fonte de riquezas da região significava arriscar o colapso da existência da sociedade que o legitimava. Ainda assim a natural habilidade carismática do Presidente Galvez logrou obter apoio popular e dos proprietários à medida, conflagrando toda a Republica do Acre contra uma possível invasão militar.



"Fechando estes rios à navegação brasileira e não exportaremos uma só pele de borracha, enquanto as forças brasileiras, auxiliando os bolivianos, permanecerem no território nacional. A borracha que os proprietários e negociantes do Acre possuem será empregada nas trincheiras que constituiremos em defesa de nossa dignidade."



Porém a pior oposição a ser enfrentada neste momento por Galvez veio através dos rios que traziam os vapores e seus comandantes imediatamente prejudicados pela dura medida de retenção da borracha nos barracões. Foram esses comerciantes que aclamaram a um dos grandes proprietários do Acre, o Capitão Antônio de Sousa Braga, que acabara de chegar, como novo presidente do Estado Livre do Acre, em 28 de dezembro. A primeira providencia de Sousa Braga foi decretar a prisão de Galvez e logo a seguir declarou livre o transito da borracha pelos rios acreanos. Dias depois, no Riosinho aconteceu uma troca de tiros entre as forças de Sousa Braga e as de Galvez que deixou vários feridos e uma vitima fatal entre os homens de Galvez que caiu prisioneiro na madrugada de 31 de dezembro entregando o poder ao duro e determinado seringalista.



1900



Janeiro



Sousa Braga era um cearense rude a quem só interessava a manutenção do comércio da borracha. Não possuía o brilhantismo do espanhol no trato com a população. Logo pôde perceber as dificuldades de se governar a Republica do Acre e quanto maiores as dificuldades enfrentadas, mais Sousa Braga compreendia as ações implementadas por Galvez.



Para piorar a situação chegou ao Acre um vapor fretado por autoridades bolivianas que se instalaram no seringal Humaitá, de propriedade do notório aliado dos bolivianos o Capitão Leite Barbosa. No dia 12 de janeiro encontraram-se no estirão da Cidade do Acre o vapor Rio Afuá de Sousa Braga e o vapor Manaus que levava os bolivianos na retomada de Puerto Alonso. O presidente do Estado Independente do Acre ainda tentou parlamentar enviando emissários portadores de bandeira branca. Porém, o Capitão Leite mandou abrir fogo sobre os emissários, o que provocou a morte de um deles. Sousa Braga reagiu então aos tiros dos traidores e depois de acirrado combate, os bolivianos se renderam, sendo aprisionados e deportados de volta para Manaus.



Esses acontecimentos atormentaram Sousa Braga que se preocupava muito com a responsabilidade que assumira e que começava a ficar cada vez mais pesada. Sua admiração pelo governo e pelas idéias de Galvez aumentavam na mesma medida em que essas preocupações o assaltavam. Além disso alguns revolucionários percebendo a indecisão que se apossava de Sousa Braga começaram a pressionar pela volta de Galvez ao comando do Estado Independente do Acre. Sem outra saída para a enrascada em que se metera e convencido da competência e seriedade do espanhol que aprisionara, Sousa Braga devolveu à Galvez o cargo de Presidente da Republica do Acre, ainda em 30 de janeiro, alegando problemas de saúde e financeiros.



Fevereiro



A população do Acre recebu com festas e alegria a volta de Galvez ao poder. Em que pese essa nova fase de vitalidade do governo Galvez a questão acreana havia chegado a um ponto antes inimaginável por seus inúmeros desdobramentos práticos.



A imprensa continuava dividida entre o apoio e o repúdio à Republica acreana, havendo mesmo um aumento neste ultimo depois da proibição do comércio da borracha. Os "sucessos do Acre" alcançavam as páginas de jornais argentinos, norte-americanos e europeus. O capitalismo monopolista internacional começava a se impacientar com a possibilidade de diminuição no fornecimento da borracha, insumo indispensável à industrialização que se processava no mundo civilizado. A pressão do governo federal pela imediata solução daquele conflito que se eternizava indefinidamente, minou o apoio, ainda que sempre fornecido ocultamente, do governador Ramalho Junior, do Amazonas.



Dessa determinação do governo federal brasileiro se originou a partida do Aviso-de-guerra Jutai da marinha brasileira rumo ao Acre, trazendo um vice-consul para assumir a representação brasileira junto aos bolivianos. Logo a seguir era enviado também o Aviso-de-guerra Tocantins com a missão de acabar com a Republica do Acre e devolver a região ao domínio boliviano. A força do Tocantins era composta de 100 homens e 12 oficiais, sob o comando de um major.



Março

Intimado a entregar o poder e a dissolver o Estado Independente do Acre, Galvez alquebrado pelas febres provocadas pelo impaludismo que o assaltavam, aceitou as exigências das tropas brasileiras. Toda a formação e a base de sustentação da Republica do Acre estava fundada no sentimento patriótico em relação ao Brasil. Não havia possibilidade de comandar os brasileiros do Acre contra seu próprio pais de origem. Mas antes de dissolver efetivamente o Estado Independente do Acre, Galvez exigiu uma compensação financeira para si e para todos os que haviam arcado com as despesas ocorridas até ali. Depois de intensas negociações, o governador do Amazonas aceitou arcar com uma indenização aos proprietários sublevados do Acre. No dia 15 de março Galvez assinou a ata de rendição e se tornou prisioneiro sob palavra dos militares brasileiros que efetivamente devolveram o controle da região aos bolivianos. Pouco dias depois Galvez partiu para nunca mais voltar a pisar em terras acreanas. Porém, a semente do sonho de liberdade já estava plantada e nunca mais deixaria de florescer no Acre.


fonte:Marcos Vinicius Neves

























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