terça-feira, 30 de agosto de 2011

O que é inflamação? O que é um abscesso?

Entenda o que é uma inflamação, porque o corpo produz o pus e como isso é benéfico para nossa saúde.

Acho que todo mundo alguma vez já se perguntou o que seria exatamente o pus ou um abscesso. A idéia mais comum é que o pus se trata de uma substância produzida por bactérias.

Não é bem isso. O pus é o resultado final de uma ação das células de defesa, os glóbulos brancos, contra uma infecção, geralmente bacteriana.

Vou usar como exemplo o piercing que eu já falei em outra postagem (leia: PIERCING
Perigos e complicações). A história é a seguinte:

Uma paciente coloca um piercing em uma determinada região da pele. O processo é feito sem a assepsia adequada e bactérias conseguem entrar pelo orifício de entrada do piercing. Assim que organismos estranhos entram em contato com nosso meio interno, eles são logo identificados pelas nossas células de defesa, em geral os macrófagos. Essa células imediatamente liberam mediadores inflamatórios que agem aumentando a circulação de sangue local para facilitar a chegada de mais células de defesa. É uma espécie de alarme para chamar reforços. Esse aumento local da circulação de sangue leva ao aparecimento do rubor (vermelhidão ) e do calor característicos dos processos inflamatórios. Alguns desses mediadores aumentam a sensibilidade para dor, que é uma maneira de mostrar ao paciente que algo de errado está ocorrendo naquele sítio.

O reforço vem pelo sangue, através dos leucócitos (células brancas). Esses leucócitos precisam atravessar a parede do vaso para chegar no tecido infectado e combater as bactérias. Mais uma vez, os mediadores inflamatórios ajudam, aumentando a permeabilidade dos poros dos vasos sanguíneos. Esse processo facilita a saída das células brancas, principalmente dos neutrófilos (subtipo de leucócito), mas também de proteínas e plasma ocasionando edema no local por excesso de líquido.

Neste momento temos os 4 sinais típicos de um processo inflamatório, todos causados por reações do nosso próprio organismo:

- Calor

- Rubor

- Edema

- Dor

Esse processo inflamatório descrito ocorre em qualquer situação de agressão, seja por infecções, por trauma, por queimaduras, doenças auto-imunes (leia: DOENÇA AUTO-IMUNE) etc... Se o agente causador não mais existir, como no caso de um traumatismo, esse processo será auto limitado. Se houver um agente invasor como uma bactéria ou um corpo estranho, ele continuará até que a causa seja eliminada.

Voltando então ao nosso exemplo, o quadro agora é de um local com inúmeras bactérias, inúmeros neutrófilos, plasma sanguíneo, vários tipos de proteínas, mediadores inflamatórios etc... Na verdade, é uma campo de batalha, com milhões de bactérias, neutrófilos e células do tecido acometido mortos, além de mais um monte de substâncias liberadas cada vez que uma célula morre. Esse conjunto de produtos forma um líquido pastoso amarelado chamado de pus.

[FingertipInfectionPus_DSCN1202.jpg]

O pus só ocorre em pessoas com sistema imune normal. Doentes graves, imunossuprimidos, com baixa contagem de neutrófilos, não conseguem atacar bactérias invasoras, não produzem pus e muitas vezes não conseguem sequer ativar o processo inflamatório.

Muitas vezes, quando há dificuldade em derrotar determinadas bactérias invasoras, as células de defesa criam uma parede em volta do processo inflamatório, encapsulando e isolando o material purulento, impedindo que as bactérias contidas nele possam migrar para outras regiões do corpo. Isso é o abscesso. É mais um mecanismo de defesa, mas que, ao mesmo tempo que impede a saída de bactérias, também atrapalha na chegada de antibióticos e novos glóbulos brancos. Muitas vezes precisa ser abordado e drenado cirurgicamente para que se possa curar a infecção.

O abscesso pode se formar em qualquer órgão sólido, como fígado, rins, pulmão, cérebro etc... A presença dele indica uma infecção grave, geralmente com febre alta, suores e calafrios e outros sinais de sepse


BACTÉRIA ESCHERICHIA COLI / E.COLI


A Escherichia coli, também chamada de E.coli, é uma bactéria que vive habitualmente dentro dos intestinos dos mamíferos. Todos nós eliminamos diariamente nas fezes trilhões de bactérias do tipo Escherichia coli. Quem nunca ouviu falar na pesquisa de coliformes fecais para avaliar a qualidade da água e dos alimentos? Quando procuramos por coliformes fecais, estamos à procura da E.coli, cuja presença indica contaminação da água ou dos alimentos por fezes.

Mas se a Escherichia coli vive normalmente nos intestinos de todos os mamíferos, por que de tempos em tempos ouvimos falar de doenças causadas por esta bactéria?

Escherichia coli
Existem duas explicações para a pergunta acima. A primeira está no fato de que a maioria das cepas da E.coli costuma ser inofensiva quando restrita aos intestinos. As doenças surgem quando a bactéria consegue alcançar outros órgãos do nosso corpo, como por exemplo a bexiga. A maioria das infecções urinárias são causadas pela Escherichia coli, que devido a proximidade da uretra feminina com o ânus, frequentemente consegue passar do trato digestivo para o trato urinário.Temos dois textos sobre infecção urinária em que explicamos com detalhes como se dá a infecção da bexiga e dos rins pela E.coli:

- INFECÇÃO URINÁRIA
CISTITE
Sintomas e Tratamento

- PIELONEFRITE
INFECÇÃO URINÁRIA
Sintomas e tratamento

A infecção urinária é a infecção mais comum causada pela Escherichia coli, todavia, esta bactéria também pode causar vários outras infecções como abscesso no fígado, pneumonia, meningite, artrite, colecistite (infecção da vesícula) etc...

Um quadro gravíssimo de sepse (leia: O QUE É SEPSE E CHOQUE SÉPTICO?) costuma ocorrer nos pacientes que apresentam perfuração do intestino, o que permite um grande afluxo de bactérias intestinais para dentro da cavidade abdominal, causando grave peritonite.

A segunda explicação reside no fato de que existem diferentes cepas de Escherichia coli, sendo algumas delas capazes de causar doenças mesmo quando restritas aos intestinos. Existem várias cepas diferentes de E.coli responsáveis por quadros de diarreia, com diferentes graus de gravidade. Todas elas são adquiridas após ingestão de água contaminada com fezes. A contaminação através de alimentos também é comum e se dá por vegetais regados ou lavados com água contaminada ou alimentos crus ou mal cozidos preparados por cozinheiros ou açougueiros que não lavam as mãos adequadamente após avacuarem. A carne também pode se contaminar no momento do abate, ainda antes de chegar ao açougue ou supermercado.

Entre as diarreias causadas pela Escherichia coli, podemos destacar as seguintes cepas:

a) EPEC - E.coli Enteropatogênica: Causa comum de diarreia em crianças

A E.coli Enteropatogênica é uma cepa capaz de se aderir à parede do intestino, causando inflamação e alterando a capacidade deste em absorver água e alimentos, o que resulta em diarreia aquosa. Adultos costumam ganhar imunidade contra esta cepa, daí o motivo desta diarreia ser mais comum em crianças e bebês.

b) ETEC - E.coli Enterotoxinogênica: Causa a diarreia conhecida como diarreia dos viajantes

A E.coli Enterotoxinogênica é uma cepa que produz uma toxina semelhante à da bactéria da cólera, que causa uma diarreia aquosa profusa. Esta Escherichia coli é comum nos países tropicais, sendo causa frequente de diarreia em crianças nativas ou em turistas vindos de países de clima temperado. Geralmente o paciente desenvolve imunidade após a infecção, motivo pelo qual ela só costuma acontecer uma vez.

c) EIEC - E.coli Enteroinvasiva: Causa quadro semelhante à disenteria

A E.coli Enteroinvasiva é uma cepa com uma virulência parecida com a bactéria Shigella, causadora da disenteria. O quadro clínico desta infecção é de profusa diarreia, geralmente com sangue, intensa dor abdominal e febre alta.

d) EHEC - E.coli Enterohemorrágica: Causa grave diarreia e síndrome hemolítica urêmica

A E.coli Enterohemorrágica é uma cepa que também se comporta de modo semelhante à bactéria Shigella, sendo capaz de produzir uma toxina altamente agressiva que leva à colite hemorrágica. O quadro da E.coli Enterohemorrágica é também de diarreia sanguinolenta e intensa dor abdominal, porém, com um fator agravante: esta cepa de Escherichia coli pode levar a um quadro de síndrome hemolítica urêmica, uma complicação grave que cursa com anemia e queda das plaquetas por destruição maciça das mesmas, além de insuficiência renal aguda (leia: INSUFICIÊNCIA RENAL AGUDA
Sintomas e tratamento) que em muitos casos requer a realização de hemodiálise (leia: HEMODIÁLISE
Como funciona, cateter e fístulas).

A E.coli Enterohemorrágica é frequentemente a responsável por surtos de grave intoxicação alimentar, levando até à morte de alguns pacientes. Somente neste ano de 2011 já foram descritos 3 surtos de infecção por E.coli Enterohemorrágica, dois nos EUA (em Março e Abril) e um muito noticiado em Junho na Alemanha, com pelo menos 520 casos e 11 mortes.

Como evitar contaminação pela Escherichia coli?

No caso da infecção urinária a contaminação ocorre quando bactérias das fezes alcançam a entrada da uretra. Isto pode se dar durante o ato sexual, principalmente se houver relação anal precedendo a vaginal, por descuido na higiene após evacuação, por ducha vaginal etc... No texto sobre cistite (INFECÇÃO URINÁRIA
CISTITE
Sintomas e Tratamento) explicamos com detalhes como evitar a infecção urinária.

Em relação às diarreias causadas por cepas mais virulentas da E.coli, a transmissão pode se dar dos seguintes modos:

- Entre humanos: é uma forma pouco comum e se dá por pessoas contaminadas que não lavam as mãos após evacuarem.É mais comum em creches e asilos.

- Por contato com animais: geralmente ocorre em fazenda após contato com gado ou porcos sem a devida higienização das mãos.

- Por alimentos: É a forma mais comum. Como a E.coli costuma ficar no alimento por alguns dias antes deste ser ingerido, há tempo das bactérias se multiplicarem. Quanto maior a quantidade de bactéria ingerida, maior as chances de intoxicação alimentar. A contaminação imediatamente antes do consumo por mãos contaminadas (geralmente do cozinheiro) também é possível.

Dicas para prevenção da E.coli:

- Lave bem as frutas e verduras antes de consumi-las.

- Evite comer carnes mal passadas (o cozimento mata a E.coli).

- Não consuma leites ou sucos em caixa que estejam fora da geladeira há muito tempo após abertos.

- Lave bem as mãos antes de preparar alimentos ou após ir ao banheiro.

- Lave bem as mãos após contato com animais, principalmente porcos e vacas.

- Lave bem os talheres que foram usados para cortar alimentos crus.





Um comentário:

  1. Ah, como foi bom ler este post! Eu fiquei super preocupado quando vi pela manhã que meu dedo estava inchado, vermelho, doía... Apertei o que parecia ser uma "bolinha" no meu dedo e saiu pus, aí que eu quase morri, mas foi bom ver esta postagem, fico muito grato por você compartilhar isso!
    Removi aquela maldita pelinha que fica nas laterais das unhas e deu nisso. Acho que logo passa. Obrigado! :D

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