sexta-feira, 28 de março de 2014

'Filho de seringueiro hoje já nasce querendo criar gado',

'Filho de seringueiro hoje já nasce querendo criar gado', 
diz extrativista Criações de gado e desmatamento podem ser encontradas em reserva. Reserva Chico Mendes ocupa uma área de 970 mil hectares. 
 Rebanhos podem ser encontrados dentro da Reserva Chico Mendes (Foto: Yuri Marcel/G1) 


O assassinato do líder seringueiro Chico Mendes completa 25 anos neste domingo (22), e o desafio para manter vivos os ideais de preservação da floresta defendidos por ele parece cada vez mais difícil. Na reserva que leva o nome do ambientalista, a criação de gado e o desmatamento ameaçam esse sonho. 

Criada em 1990, a Reserva Extrativista Chico Mendes tinha como objetivo ser uma unidade de conservação ambiental mantida com o apoio de famílias de seringueiros tradicionais que vivem no local e sobrevivem de pequenas plantações e da extração de látex e castanha. A reserva ocupa uma área de 970 mil hectares, divididos entre seis municípios. 

 Os seringueiros que vivem no local coletam o látex vendido para a Fábrica de Preservativos Masculinos Natex, instalada pelo Governo do Estado no município de Xapuri (AC). Por esse serviço eles recebem, em média, R$ 800 por mês.

 De acordo com o presidente da Cooperativa Agro Extrativista de Xapuri, Luiz de Carvalho, apesar dos incentivos para que os seringueiros vivam exclusivamente da extração de borracha e castanha, o gado acaba servindo como uma salvaguarda. 

 Presidente da Cooperativa Agro Extrativista afirma que a grande maioria dos moradores da Reserva Chico Mendes criam gado 
(Foto: Yuri Marcel/G1) 

"É uma coisa que veio de fora e faz parte do cotidiano. Hoje o filho do seringueiro já nasce querendo criar gado, não mais seringa. Porque gado é coisa que você vende na hora que quer. Para vender a borracha, tem que andar quatro horas com ela nas costas, pegar caminhão e quando chega aqui é comercializada a R$ 2 ou R$ 3", diz. Carvalho afirma que a grande maioria das famílias que vivem dentro da reserva possuem gado atualmente. "Tem muita gente morando lá dentro achando que não é reserva. Por isso há conflito. Algumas pessoas desmatam mais que o necessário. Tem muita gente fazendo rodízio, comprando e vendendo colocação (pedaço de terra ocupado pelo seringueiro dentro da reserva)", denuncia. 

'Outro caminho' Em 1979, Raimundo Mendes de Barros, de 68 anos, largou o trabalho na antiga Superintendência de Campanhas de Saúde Pública (Sucam) para ser seringueiro e ajudar a combater o avanço dos fazendeiros nas florestas de Xapuri. Hoje, ele lamenta que são os próprios seringueiros quem levam gado para dentro da reserva. 

 "Não sei por que cargas d'água nossos jovens estão se enveredando por esse caminho. A gente combate essas coisas, mas uma grande parcela ainda entra nisso", queixa-se. Raimundo acredita que um dos motivos do problema é a ausência de um sindicato forte. "Uma das razões para isso foi o desvio de linha política do sindicato. Se tivesse continuado na mesma linha, ele estaria discutindo o prejuízo que o gado faz na floresta. Mas infelizmente não temos uma diretoria que combata isso", critica. 
      Primo de Chico Mendes, Raimundo Mendes de Barros, lamenta entrada de gado em Reserva (Foto: Yuri Marcel/G1)

 Criação do gado 
 O seringueiro José Ribeiro da Silva, de 39 anos, trabalha com a extração de látex desde os 12 e chegou a participar de um dos "empates", como eram chamadas as manifestações dos seringueiros para impedir a derrubada da floresta. No entanto, em sua colocação, ele hoje cuida de algumas cabeças de gado e defende que os seringueiros façam o mesmo, mas tenham cuidado. 

 "Criar gado, todo mundo deveria criar. Mas saber criar também, de forma manejada para não prejudicar a floresta. Eu cuido do gado de meu pai com a minha irmã e é pouquinho. Tem que saber cuidar, trabalhar com pasto manejado", diz. 

ICMBIO A analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMbio) no Acre, Iria Oliveira, explica que cada morador pode usar até 15 hectares de terra para o pasto, na unidade. "Isso é o que vem dizendo no plano de utilização criado por eles mesmos e acordado no conselho, que é a instância maior", diz. Iria diz que casos em que os moradores passem do limite estabelecido serão analisados individualmente. "A reserva tem regras, cada morador deve cumprir o plano de utilização. Caso isso não seja cumprido, ele pode sofrer punição. Porém, nós vamos analisar os casos individualmente de acordo com a sua particularidade. Pelo censo feito em 2009 foi possível perceber que algumas famílias estavam ultrapassando esse limite", ressalta. Para a fiscalização nessa área, o ICMbio disponibiliza dois agentes para o monitoramento. Iria diz ainda que a Reserva Extrativista Chico Mendes foi a segunda a ser criada no Brasil.
fonte: G1Acre.

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